“Você já falou com jogadores de perto? Deixa de ser caozeiro”. A dúvida é rotina. Ninguém que não conheça, de fato, associa a minha imagem ou a de qualquer negro como de uma pessoa capaz de transitar em áreas consideradas abastadas, nobres ou ter relação com gente ilustre. Para o campo, somos úteis, fortes, ídolos, atléticos. Fora dele, seja no jornalismo, no futebol, na medicina, seguimos como a carne mais barata do mercado. Nesse jogo, a bola não deixa de entrar por acaso.

O sistema te faz crer que tudo é meritocracia, dá um nó tático quando você acha que conseguiu muito por chegar onde ninguém achou que pudesse. Mas não é o bastante. O topo não é o meio do caminho se apontarem ali o seu destino final. Inventaram o lugar de fala do negro, mas o lugar do negro ainda é um espaço delimitado por preconceitos. O futebol evoluiu como coletivo. E a sociedade? Hoje eu vou escalar o time que me incomoda no 4-3-2-1.

QUATRO. Quando entrei na faculdade de comunicação social através de uma bolsa conquistada por um benefício da minha mãe – e quase ninguém sabia na época, porque por algum motivo eu temia contar – eu não tinha noção do privilégio. Sim, o normal para os outros era um privilégio pra mim, o primeiro da minha família a conseguir entrar e terminar uma graduação. Na sala de aula, lembro bem do início: mais de trinta alunos. Apenas quatro negros. Foi uma conta rápida, feita mentalmente sem pretensão nenhuma. Quinze anos depois, esse universo evoluiu sobretudo de dentro pra fora. De fora pra dentro, não é anormal se sentir preso à marcação adversária.

TRÊS. A melhor defesa nem sempre é o ataque? Numa roda de conhecidos, entre jornalistas e amigos, abriu-se a discussão de que não havia espaço para negros porque não tinham tantos negros capacitados. A área de comunicação era pauta naquele dia, mas estenderam o argumento para todo o resto. De pronto, citei cinco jornalistas que estavam desempregados ou ocupando funções abaixo de seus currículos. Alguns concordaram, outros associaram o cenário à sorte ou azar. Sorte ou azar é jogar a moeda pro alto e sempre esperar, no próximo arremesso, que as chances se manterão em 50%. O que se vive tem mais a ver com causa e efeito. Perceba: dos setoristas ativos do Fluminense, apenas três são negros. Além de mim, Gerson Jr, da Rádio Brasil e Marcello Neves, do O Globo. Só. O racismo ofusca talentos.

Diferente do futebol, os números fora das quatro linhas quase sempre favorecem uma leitura mais ampla da partida. Não é como ter 65% da posse de bola, finalizar 31 vezes e ainda assim perder por 1 a 0 para o CSA, no Maracanã. Para se ter ideia da dicotomia, vivemos num país onde 55% da população se declara negra ou parda. Nesse sentido, o levantamento feito pela equipe dos Jornalistas&Cia em parceria com o Portal dos Jornalistas e o Instituto Corda ouviu 1.952 profissionais da categoria para “medir o efetivo perfil racial e contribuir para que o jornalismo possa caminhar de forma mais ágil em direção à diversidade e à inclusão”. A pesquisa mostrou que apenas 20% dos jornalistas são negros nas redações brasileiras. Outro dado importante citado é que 98% dos jornalistas negros entrevistados afirmam que a carreira é mais difícil. Não é coincidência.

DOIS. Eles veem os negros bons para serem gladiadores, astros, artilheiros. O potencial físico é exaltado. As valências intelectuais, nem tanto. Pela primeira vez, um clube da Série A teve dois treinadores negros ao mesmo tempo, com carreiras solo na elite do futebol brasileiro, que se uniram para trabalhar em um cenário cada vez mais raro para afrodescendentes: Roger Machado e Marcão meses atrás. A união se deu mais pela sincronicidade em si do que por uma questão estratégica de representatividade. Agora, de 20 clubes da Primeira Divisão, apenas dois seguem a linha deste discurso: Fluminense e Juventude possuem profissionais negros no comando do time.

UM. O mundo não é uma ilha e não dá para mudá-lo usando discursos teóricos e sem fazer um exame prático de consciência. A vida não é o próprio umbigo, mas quem lava os pratos em casa sabe a importância de se manter a louça limpa fora dela. Há praticamente treze anos no NETFLU, tive apenas um companheiro negro como jornalista, Rodrigo da Costa. Neste momento, sigo sendo o único negro do maior portal da torcida tricolor, considerando todo os aspectos. Jamais fui julgado aqui pela minha cor, mas é sintomático. Esse enredo é parecido com o de outras mídias, sejam elas segmentadas ou não. Não é questão de opinião. A inserção da pluralidade é ótima para os discursos panfletários, mas ainda difícil de ser implementada. Precisamos dar mais do que um passo. É uma caminhada contínua, uma tabela em frenesi para envolver o preconceito na jogada, estufando as redes e comemorando como se fosse gol de final de Copa do Mundo.

A geração que criou a expressão “mimimi” para passar pano em problemas estruturais gravíssimos não suporta o básico que é o questionamento. Jamais saberão o que seria o revide, porque não são capazes de compreender o peso da própria pele em suas cicatrizes. O contra-ataque ainda soa estranho, mesmo na forma de empoderamento e representatividade. Vão dizer que não há negros suficientemente bons no mercado para suprir a demanda. Se você começa do subsolo e precisa subir de escadas até o 30º andar, sua concorrência com quem tem elevador à disposição praticamente inexiste. 

O sistema já está manjado. Não é só Fernando Diniz que tem a imprevisibilidade previsível. Quando a nossa cor passou a ser pauta para justificar nosso temperamento e atos, o mundo ao redor deixou de ser colorido. Passamos a caminhar sob uma perspectiva monocromática, tentando entender o porquê da complexidade em torno da pele negra. O sangue que corre nas minhas veias é vermelho igual dos outros, mas não adianta. Criaram rótulos para embalar nossas cicatrizes enquanto o chicote seguia ricocheteando cinco séculos depois da primeira chibatada. Ele está invisível até que a dor respingue em alguém. E todo dia o filme se repete. Em preto e branco, me nego a concordar que no final do trampo, seremos menos importante por ter mais melanina, por não concordar com essa sina.

Neste Dia da Consciência Negra, rogo meus desejos para uma reflexão: que esse particular sistema 4-3-2-1 pare de ser o exemplo de um grupo, para se tornar contagem regressiva de todos por uma vida realmente mais plural. Se o mundo fizer o que sempre fez, conquistará e realizará o que sempre conquistou.

O NETFLU reforça esta luta e admite o esforço para que mais negros tenham oportunidade de ingressar no mercado de trabalho, especificamente na comunicação.