Natural de Itororó, na Bahia, Pierre faz parte daquela gama de jogadores com infância difícil. Não lhe faltou comida, mas tinha de ralar para consegui-la. Ao Globoesporte.com, contou ter trabalhado no jogo do bicho e também num botequim

– Sou o caçula de uma família de 12 irmãos, e hoje somos 11 porque um faleceu. Desde pequeno sou de origem humilde, mas nunca me faltou comida. Sempre me destaquei no interior, mas o meu desejo de ser jogador foi ficando mais distante porque eu já estava com quase 19 anos e trabalhava em uma banca de jogo do bicho e rodava a cidade de moto entregando o resultado. Antes disso, trabalhei com um irmão em um bar. Até que em 2000 surgiu convite para um teste no Vitória. Não aceitei porque não queria perder o emprego, mas depois meu patrão disse que eu poderia ir e se não passasse meu emprego estava garantido. Saí de Itororó e fui para Salvador, a 600km. Fiz o teste, fiquei seis meses no Vitória e depois fui dispensado. Aí pensei: “Bola para mim acabou, vou voltar para o interior”. Era último ano de juniores. Mas surgiu um convite para fazer teste no Ituano. Nem o dinheiro da passagem eu tinha. Mas aí pagaram para mim. Saí em um domingo de Salvador e cheguei na terça em Campinas, e de lá fui para Itu. Eu tinha um radiozinho e vinha escutando o caminho todo. Em alguns momentos a saudade batia, porque eu era muito apegado com meus pais e deixei tudo para trás. A viagem foi longa, mas proveitosa. Lá foi onde tudo se iniciou – relatou Pierre, detalhando o trabalho no jogo do bicho:

– Eu trabalhei com meu irmão no bar, aí na parte da tarde eu estudava. Neste bar que eu conheci o dono da banca, e ele me convidou. Fui aprendendo. Comecei como carimbador, depois fazia jogo e depois fiquei como motoboy recolhendo jogo e entregando resultado. Foram quase três anos.

Após, se mudou para Salvador e a vida se modificou. Pierre ficava na casa do cunhado de um dos irmãos.

– Foi bastante difícil. Minha mãe não tinha condição de me bancar, mas teve um rapaz que me ajudou muito, o Carlinhos, cunhado de um irmão meu. Neste período, como o Vitória não me dava alojamento, eu ficava na casa dele. A única coisa que o Vitória me dava eram duas passagens e, por diversas vezes, andei quilômetros e mais quilômetros para economizar. Foi tudo na base da persistência. Durante esses seis meses, lembro que meu pai foi me visitar apenas duas vezes por causa das condições (financeiras). Minha trajetória é difícil, mas vencedora, graças a Deus.