Sem papas na língua. Em entrevista exclusiva ao portal NETFLU, o presidente da, agora ex-patrocinadora do clube, César Malta, deu detalhes de toda o negócio que havia costurado com o Fluminense. Demonstrando chateação pela forma como ocorreu o distrato, o mandatário da Valle Express elencou diversos problemas na relação, que segundo ele explicam não só o não pagamento das parcelas acordadas, como a dificuldade numa evolução da parceria.

Vale destacar ainda que críticas ao marketing, ideias de acordos e processo também estão na pauta do homem forte da empresa de cartões de crédito, que anunciou na última terça-feira a sua venda para um grupo de investidores norte-americanos.

Confira a entrevista na íntegra: 

NETFLU: Por que tanto tempo em silêncio?

César Malta: A gente, por várias vezes, teve vontade de conversar com vocês (imprensa), mas, infelizmente, por cláusulas contratuais, acabamos não podendo falar. Agora, com essa decisão deles de romper, não temos mais essa preocupação.

NF: A rescisão pegou vocês de surpresa?

CM: Muita surpresa. Estamos prestes a virar um banco e o Fluminense abriu mão da parceria. É claro que a gente queria uma renegociação daquilo que foi acordado, porque ficamos durante meses sem ter a contrapartida do Fluminense completa pra gente. Inclusive, conversei com pessoas do Fluminense ontem (terça-feira), que me mandaram mensagem, dizendo que queria manter-se na camisa, fazer negociação para não gerar desgaste para o Fluminense, nem para a Valle. Mas, pelo visto, eles não tinham interesse.

NF: Você disse que foi pego de surpresa. Mas não houve notificação por parte do Fluminense, a respeito desse não pagamento, a exemplo do que vocês fizeram com o clube?

CM: A gente notificou em abril e maio. Aí, vieram notícias de não pagamento e o banco (que adquiriu a Valle) quando entrou, mandou um diretor de operações lá. Depois, mandou um escritório de advogados fortes do Rio para ir lá, dizendo que se não cumprisse, iriam queimar o nome da Valle. E a Valle teria de tomar alguma posição judicial. Após isso, dois três, dias depois mandaram a notificação pra gente. Isso foi há uma ou duas semanas atrás. Hoje mandaram a rescisão. Quando viram que o banco ia se movimentar, ao invés de tentar acertar a coisa, eles preferiram rescindir e querer jogar, não sei se é algum projeto de marketing, desviar a atenção de alguma coisa para jogar pra gente.

NF: Débitos seguidos com o Fluminense em parcelas progressivas. Que tipo de garantias a Valle daria ao Tricolor para quitar essa dívida a partir da entrada do grupo de investidores americanos que compraram a empresa?

CM: A gente teve um representante do grupo que chegou até a ir lá no Fluminense, inclusive num dia que teve confusão grande na frente do clube, tendo até tiro. Ele estava lá e voltou muito preocupado. De imediato, ele passou para o grupo dizendo que era melhor rescindir. Tiveram pessoas que o abordaram, dizendo que não poderia apoiar o presidente e explicamos que não nos enviamos na situação do clube e que tínhamos, simplesmente, uma parceria comercial. Na verdade, a gente nunca ficou inadimplente com o clube, porque desde a abril a gente já vinha notificando o clube de maneira formal, que os pagamentos estavam suspensos até que eles regularizassem todos os compromissos que tinham conosco. A Daniela (assessora da empresa) vai te mandar um material contendo isso tudo (o material não fora enviado, após orientação do jurídico da Valle Express). Nós não patrocinamos apenas o time da Série A. Nós patrocinamos as categorias de base, que foi campeã no início do ano e a gente não estava lá nas camisas. Praticamente todas as fotos que tiraram no Twitter, ao longo de todo o patrocínio, eles esfumaçaram o fundo de forma que não dava para ler a Valle. Fizemos inúmeras reclamações com eles. Quando a gente faz patrocínio com o clube, a camisa é só uma parte do patrocínio… temos até curvas de acesso no nosso site. Quando tem jogo, não muda muito o acesso pra gente, é insignificante a alteração. Mas uma matéria, reportagem, entrevista de um jogador, muda pra gente. Nós ficamos por vários meses sem estar na camisa de treino do Fluminense, sempre que as pessoas favam algum tipo de entrevista, a gente acabava não aparecendo. Um backdrop representa praticamente a metade da visibilidade de uma marca e nós não aparecíamos em momento nenhum. Eles embaçavam praticamente todas as fotos. Era para estarmos na porta do ônibus do Fluminense e não estávamos; era para termos 32 ou 24 placas no CT, mas não tinham. Eles alegaram que o CT era novo, que seria a primeira vez que teria placa e queriam que comprássemos as ferragens para colocar no campo. Aí, uma placa de mil passaria para três, quatro mil reais. Seria inviável pra gente. Falamos para eles que queríamos comprar só a placa, não a estrutura, a não ser que fosse nossa depois, mas não fechamos esse acordo. Os notificamos em abril, em maio notificamos novamente, dizendo que só voltaríamos a efetuar os pagamentos a partir do momento em que cumprissem o que se comprometeram conosco. Eles nem responderam nossa notificação, se omitiram e saíram várias reportagens falando sobre o não pagamento nosso e não falaram sobre as notificações e a gente, por contrato, não poderia falar nada. Eles meio que colocaram uma arma na nossa cabeça, colocando a mídia contra nós. E nós adoramos o patrocínio, adoramos a forma como a torcida abraçou a gente, fizemos de tudo para seguir no clube… no mês passado, contratamos um advogado muito famoso no Rio, Eduardo Fisher, para tentar intermediar um acordo pra gente, para que ele fosse lá e falasse com eles. Agora, a gente tem uma estrutura maior para proteger a Valle. Os investidores garantiriam o pagamento se o Fluminense cumprisse com o contrato e eles vieram com essa rescisão.

NF: A Valle não quis pagar o Fluminense, mas tinha dinheiro em caixa para pagar, é isso?

CM: Eles foram notificados por duas vezes, informados pela suspensão de pagamento sobre a falta de contrapartida deles. E eles não responderam, que fique claro. O grupo mandou alguém lá para ver o que dava para fazer e o que não dava e sinalizou. Para quê o Fluminense era útil pra gente? Quando a gente estava vendendo a nossa franquia, comentando o nosso cartão, faláamos que estava no Fluminense e era ótimo pra gente. Só que desde o primeiro mês em que saiu a notícia do atraso e eles não se manifestavam em nada… isso era 90% do nosso patrocínio. Só que quando a gente falava que patrocinávamos o Fluminense, as pessoas entravam lá e falavam sobre o atraso. Aí a gente explicava que não podia falar a respeito, que não era bem isso, que futebol era complicado. As pessoas entendiam, mas não entendiam. No primeiro mês, isso o Flu sabe até o nome de quem é, um ídolo de vocês estava comprando a nossa franquia em Belo Horizonte por R$ 3,5 milhões. Quando saiu a notícia, ele desistiu. Agora, inclusive, eu tenho as notificações, que eu vou poder mostrar agora, que a gente fez e tudo mais. Apesar de o Fluminense ter entrado com a rescisão, a gente vai cobrar do Fluminense o dano à nossa imagem que eles fizeram, apesar de estarmos dispostos e abertos para conversar, embora o grupo americano esteja disposto a ir na mão contrária.

NF: Com relação ao contrato, tem uma cláusula explica que a partir de três débitos, consecutivos ou não, o Fluminense teria direito a romper o vínculo. Então, baseado nessas notificações, vocês acreditam que não houve atraso?

CM: Não conta como atraso teoricamente, porque eles foram informados que estavam suspensos até regularizarem. Até uma, duas semanas atrás, eles simplesmente se omitiram, não falaram nada. Ou seja, eles aceitaram a sugestão.

NF: Vai acabar tendo mais uma disputa judicial nesse sentido…

CM: Mais uma, né, para o Fluminense? O grupo americano até falou com a gente, dizendo que a gente tinha que patrocinar um juiz, porque todas as notícias que saem do Fluminense é de judiciário, falando que ganhou R$ 1 milhão do Diego Souza, que ganhou 25 do Scarpa, do Sport… Eles até questionaram se valeria a pena e eu disse que o clube era bom, que iríamos recuperar e os caras fizeram isso.

NF: Vocês negociaram diretamente com o Ronaldo Barcelos, vice-presidente comercial do Fluminense?

CM: O pessoal me proibiu de falar nomes, por questões jurídicas. Mas assim que ajuizamos a ação, te passo direitinho.

NF: Qual foi a participação do antigo CEO do Fluminense, Marcus Vinícius Freire, ao lado do Barcelos, nesse contrato entre Valle e Fluminense? Eles estiveram na sede da empresa antes de fechar o acordo?

CM: Na verdade, todos os que conversaram foram unânimes em deixar claro que ninguém tomaria decisão sozinho. Foram lá na Valle pessoalmente, viram nossas contas, olharam e tinham ciência de que a nossa empresa estava em crescimento. Por isso a importância do marketing pra gente. Esperávamos muito que o Fluminense ajudasse a gente com marketing agressivo e forte, para crescermos mais. Isso não aconteceu, infelizmente. Ninguém tomou uma decisão sozinho. O que foi passado pra mim é que foi levado para o conselho o que a Valle era, o potencial que teria e os riscos que o Fluminense corria. Tanto a Valle sabia dos riscos quanto o Fluminense. Até por isso que existe um contrato. Eu fui orientado a não citar nomes. Não tenho nada contra ninguém no Fluminense.

NF: Então consideram que houve uma rescisão indireta por parte do Fluminense?

CM: Exatamente. Esse é o nosso ponto. O grupo americano disse: “Eles estão querendo dar R$ 8 milhões pra gente?” Porque, na verdade, a gente vai cobrar a rescisão deles. Eles querem dar ao invés de negociar conosco, porque temos todas as provas. Eles é que estavam em débito com a gente, eles precisavam dar um jeito nas placas, colocar a gente em outras categorias, no ônibus…. não a gente com eles.

NF: Muita gente pesquisou sobre a sede da empresa, questionando o pouco capital inicial da Valle e o potencial que vocês teriam. Avaliar a empresa de vocês através da sede modesta em contraponto com os valores que estavam sendo acordados, não é paradoxal?

CM: Somos uma empresa jovem. Entramos no mercado há cinco anos. Vimos algumas imagens que não são reais. A sede é até grande. Temos um prédio inteiro, de cinco andares, patrimônio da Valle, temos uma outra sede também, com cento e tantas pessoas trabalhando… isso pra gente foi até motivo de piada. O que a gente pretendia mostrar era resultado. E estamos mostrando. Estamos com quase 700 franquias no país, fechamos com uma empresa norte-americana, estamos lançando um banco, tem cartão de crédito… em momento nenhum isso nos preocupou.

NF: Essas informações de que a Valle está sendo descredenciada de alguns estabelecimentos são verdadeiras?

CM: Nós estamos passando por um momento de fusão. Então estamos mudando toda a nossa parte tecnológica. Nos últimos dois meses, estamos tendo problema de troca de sistema e algumas pessoas não gostam, não se adaptam, mas a gente vem tendo bastante resultados positivos nas cidades, inclusive entrando agora nas capitais. Há um grupo comprando para ser nosso franqueado na cidade de São Paulo.

NF: Quanto, na prática, a Valle Express cresceu após o patrocínio com o Fluminense?

CM: A Valle cresceu um pouco no início e teve uma queda absurda desde quando começaram a vincular notícias de pagamento atrasado. Hoje eu posso dizer que a Valle diminuiu de tamanho desde que entrou no Fluminense. Se não fosse a entrada do grupo americano, trazendo vários outros produtos… o grupo ficou sabendo da gente através do Fluminense e, no final das contas, o clube agregou. A gente fez campanhas sociais, levou torcedor, várias crianças, uma experiência maravilhosa, que infelizmente falo no passado. A gente não tinha o interesse de romper, não. Tínhamos interesse em renegociar e, quem sabe, viesse até mais forte no ano que vem.

NF: As suspensões de pagamento foram sempre notificadas ao Fluminense, como você disse. Então, no próximo ano, quando os valores seria substancialmente mais alto, vocês não temiam não ter dinheiro para pagar? Sempre teve dentro do planejado da empresa?

CM: Faz parte do nosso planejamento, faz parte sim. Com todos esses problemas, o que gente chegou a oferecer para o Fluminense: “vamos fazer o seguinte, a relação não está boa, vocês não estão entregando, nós não estamos entregando, vamos terminar o ano em paz e a gente senta em dezembro e discute o ano que vem”. Até ler as notícias hoje (quarta), achei que fosse isso que ocorreria. Eu fiquei muito, muito, muito surpreso mesmo. Agora eles podem ter certeza que o grupo americano está com a gente, tudo está andando como eu tinha falado que iria acontecer. Infelizmente, parece que isso faz parte do meio de futebol, mas em momento nenhum a Valle teve a intenção de rescindir com o Fluminense. O que eu posso falar é o seguinte: vínhamos cobrando sistematicamente porque eles não apoiam em marketing. Agora, a gente nunca ficou devendo o Fluminense. Sempre foi o Fluminense que estava em dívida com a gente. A gente notificou em abril e maio e ignoraram, não nos responderam.

NF: Tivemos acesso a algumas informações sobre capital inicial e os valores são baixos relacionados ao acordo com o Fluminense. Questionou-se muito a capacidade por conta disto. O Fluminense, quando foi conversar com a empresa, sabia realmente de todos os números? Existia uma garantia maior do que os próprios cheques pré-datados?

CM: Não. O Fluminense sabia dos riscos. São várias empresas do grupo. Uma é relacionada a pagamentos, outra a franquia e outra a cartões. O Fluminense sabia disto tudo. Sabia que era uma empresa em crescimento. Eu não sei o que aconteceu lá dentro até pararem de nos ver como prioridade. No início falaram que iriam nos fazer crescer demais, assim como fizeram a Unimed crescer. Era maravilhoso, tudo o que a gente queria. Nosso projeto é bacana, Fluminense é um clube gigantesco e ele iria nos apoiar, com a gente e eles ganhando, seria maravilhoso. Até na entrevista que eu fiz junto com o presidente na época, a gente falou isso, que a Valle era uma empresa nova e o Fluminense estava sendo um empreendedor junto a Valle. Mas o clube foi empreendedor até a gente assinar o contrato. A partir daquele momento, não foi mais.

NF: Houve algum estudo de ação de marketing do clube em parceria com vocês?

CM: Não. Tivemos que agir por nós mesmo. É claro que quando a gente perguntava, eles respondiam, mas nunca apresentaram pra gente um projeto de marketing. Muito pelo contrário. Às vezes embarreiravam, por conta do escudo estar em alto relevo. A gente pagou um vídeo para passar no telão, que custou R$ 15 mil, mas falaram na última hora que não poderia passar, porque tinha um sombreado embaixo do escudo. A gente levou investidores com a gente e não passou. Em momento nenhum a gente teve um plano de marketing. A gente publicava e tinha que comunicar eles. O que eu , César, esperava, é que chegaria alguém do clube e falaria faz isso, isso e isso. Mas chegou lá, cadê todo mundo? Não tivemos esse apoio. Era o nosso sonho. Uma empresa menor, que põe tudo o que tem numa parceria dessa e todos eles falam que a gente vai entrar e explodir, aí, de repente ninguém mais ajuda e só querem o nosso dinheiro. Teve uma reunião que eu falei: “o único interesse de vocês é pegar o meu dinheiro?”. Assim não dá. Como eu vou crescer desse jeito?

NF: Fazer esses pagamentos progressivos do menor para o maior valor foi por qual motivo? Muita gente desconfiou desses moldes de contrato.

CM: Foi baseado em tudo o que falei. Disseram que se eu entrasse a empresa iria explodir, que iria vender isso e aquilo. Eu dizia que não tinha como pagar um milhão por mês hoje, mas diziam que dariam apoio, que a empresa iria crescer, que teria jogador gravando vídeo. Eles usavam bastante a expressão de que empresa ira “explodir na internet”. Questionei se me garantiriam isso e eles disseram que sim. A minha proposta era outra, inclusive, menor, era R$ 100 mil por mês. A gente não quis fazer assim, na verdade foi uma proposta que chegou. Perguntaram se eu iria para manga, eu disse que não interessava.O que nos interessava era ser patrocinador master. Disseram que a gente iria evoluir, vender um milhão de cartões. Pode até fazer a conta: um milhão de cartões em e um real por mês, a gente teria pago o patrocínio. Se a gente cobrar um real a mais para o Fluminense, estava joia. Mas eu fiquei órfão lá da ajuda do marketing, infelizmente.

NF: Qual é o nome do grupo norte-americano que fez essa aquisição da Valle Express?

CM: É um grupo de investidores que comprou 40% da Valle e eles estão criando uma empresa que vai ser uma holding, lá nos Estados Unidos, e essa holding vai vir para o Brasil. É uma empresa de fundo de investimentos e aí ela vai criar essa holding, que estará pronta no ano que vem. Infelizmente não deu tempo de lançar nada com o Fluminense. Eu não posso te falar o nome dos investidores, porque hoje o que temos é alguns investidores, que deram alguns milhões na criação desses produtos bancários pra gente. Só de licença, pagaram mais de R$ 20 milhões.

NF: Você acha que, no fim das contas, a rescisão foi por conta de questões políticas do Fluminense?

CM: Não do meu lado, mas pelo lado do Fluminense. Toda vez que a gente vai no campo, vemos a torcida xingando o presidente, a diretoria. O pessoal fica sem entender o que está acontecendo, até os próprios investidores.