Entrevista na íntegra com superintendente geral do Tricolor

Entrevista na íntegra com superintendente geral do Tricolor

Em entrevista ao jornal “Lance”, Jackson Vasconcellos explicou como anda a saúde financeira do Fluminense. O superintendente geral do tetracampeão brasileiro falou sobre a relação com o presidente Peter Siemsen, Unimed, as penhoras, salários atrasados e muito mais:

Manda mais do que Peter Siemsen?
– Quem diz que mando mais do que ele está contrariando a natureza da função. Só posso ser mais do que o presidente se ele não tivesse o poder de me demitir. Se não fosse ele a razão de eu estar aqui. Ele me escolheu e estarei aqui enquanto ele quiser. Qual é a função do presidente? Administrar o clube. O que o Peter constituiu com a minha presença? Passei a ser o executivo dele. Executo as ordens que ele determina.

Como está o equilíbrio entre as despesas e as receitas do Fluminense?
Hoje o Fluminense tem uma despesa mensal de cerca de R$ 4 milhões. Parte das receitas estão penhoradas e vivemos um período duro em termos de bilheteria. A diferença entre elas está muito próxima. Mas quando você vê os números de 2011, 2012, percebe que essa distância vem sendo reduzida. Só não conseguimos fazer isso neste ano por causa da Receita Federal.

No início deste ano houve uma carta da oposição criticando os salários dos executivos do clube. Os valores procedem?
Em primeiro lugar, aquela carta é política. Ela errou em todos os números que apresentou. Alguns contratos são preservados, outros não. O que tenho a dizer é o seguinte: eu ganho bem, mas nem perto daquilo que disseram. O que é ganhar bem? Sou muito bem remunerado para a função que exerço e estou satisfeito.

O que comentar sobre o atraso dos salários dos funcionários?
A inconstância financeira de uma instituição como um clube de futebol faz com que você às vezes viva momentos dramáticos de falta de pagamento. Separamos a folha de pagamento e priorizamos quem precisa de dinheiro para vir trabalhar. Isso não é demagogia. Ninguém pode esquecer que o Fluminense, recentemente, muito antes da atual gestão, teve um período de três meses de atraso. Havia dias em que o clube não tinha luz. Esse pagamento dos salários é prioridade, assim que as penhoras forem resolvidas.

Parte dessas penhoras foi em cima das cotas de televisão?
A questão dos direitos de TV é outra discussão importante. Hoje as decisões de investimento no futebol são feitas pelo tamanho da torcida. Isso é algo um pouco inócuo. Você pode ter a maior torcida do mundo e não ter exposição, não disputar os campeonatos relevantes. O Fluminense ganhou dois Brasileiros nos últimos anos. Tem que haver um balanço nessa composição.

Como não perder a cabeça diante de tantas dívidas milionárias?
Se lá atrás tivessem pago os impostos correntes, os valores hoje seriam menores e não viveríamos este problema. Poderíamos estar nadando de braçada e investindo. Muitos falam em irresponsabilidade, sonegação. Seja lá o que for, a verdade é que fizeram a opção de não pagar. A opção do Fluminense hoje é pagar. Independentemente de problemas com receitas, esta é a decisão do Peter Siemsen. Nós temos de reduzir o passivo do Fluminense.

Como se dá a relação com a Unimed-Rio? Quanto o Flu recebe?
É preciso entender o processo todo. A Unimed chegou quando o Fluminense estava na Terceira Divisão. Naquela época, ninguém queria investir no clube. Aí um torcedor, o Celso Barros, decidiu entrar e ajudar, porque o Flu não tinha dinheiro para contratar. A Unimed entra nos direitos econômicos de alguns atletas, por meio da Unimed Participações. Esses números são exclusivos dela. Trata-se de uma patrocinadora que ajuda nas decisões. Como em qualquer negócio, há sigilo de certos números, por questão da concorrência. A redução ou aumento dos investimentos da Unimed é uma decisão da patrocinadora. O Fluminense não pode ser completamente dependente da Unimed como era.

Quanto o Flu conseguiria pagar por mês para quitar as dívidas?
O raciocínio é inverso: quanto devo e quanto o governo está disposto a receber. Estamos trabalhando com a seguinte situação: se nós conseguirmos 50% das receitas para pagamento de dívida, nós sobrevivemos com 50%. Tenho de sobreviver assim.

A atual gestão do Fluminense poderia capitanear um processo de reformulação do futebol nacional?
Vou citar uma frase do presidente: “Estamos sem tempo hoje para cuidar do tema”. Tamanhos são os nossos problemas, que se começarmos a lidar com outras áreas podemos sucumbir. O Fluminense toma rigorosamente todo o nosso tempo.