Pedro Trengrouse foi pré-candidato à presidência do Fluminense em 2016, mas abandonou a candidatura (Foto: Reprodução)

Um dos pré-candidatos à presidência do Fluminense em 2016, Pedro Trengrouse, que à época abandonou a candidatura, falou em entrevista ao jornal Lance sobre os efeitos da pandemia do novo coronavírus para o futebol. Advogado especializado em esporte, ele sabe que os prejuízos são incalculáveis, mas entende também que os clubes poderiam se sair melhor caso fossem empresas.

Coordenador acadêmico o programa FGV/Fifa/CIES em gestão de esporte, Trengrouse aponta uma mudança estrutural, inclusive no calendário, como vital para a sobrevivência do futebol brasileiro.

— A reformulação estrutural é questão de sobrevivência, e o tema do calendário também precisa ser enfrentado. Faz sentido que a maioria dos clubes (quase 90%) joguem apenas quatro meses por ano? – questionou o advogado, que é um engajado defensor do modelo clube-empresa, indo na contramão da postura de clubes da elite do nosso futebol, tendo em vista os interesses quanto aos direitos de transmissão da TV Globo, por exemplo.

Ele complementou a questão fazendo uma comparação com o rico Campeonato Inglês:

— Por que não pensar nessa crise como freio de arrumação, apurar o prejuízo e reestruturar o futebol brasileiro? Enquanto ninguém investe no Brasil, na Inglaterra, mesmo nessa crise, o fundo soberano da Arábia Saudita está comprando o Newcastle United (ING) por 300 milhões de libras.

Veja a íntegra da entrevista de Trengrouse ao jornal:

Quais os principais impactos que a pandemia deve causar, sobretudo em clubes que já estavam endividados e com dificuldades por receitas?

— O prejuízo é incalculável e não se sabe até quando eventos esportivos ficarão suspensos, nem a extensão dos efeitos econômicos no arranjo produtivo e no poder de compra dos torcedores/consumidores. Amir Somoggi, especialista da Academia LANCE!, projeta que o esporte deve perder mais de US$ 15 bilhões no mundo. A Forbes indica que as receitas das ligas dos Estados Unidos devem cair cerca de 5 bilhões de dólares. O Centre International d’Etude du Sport (CIES) calcula desvalorização de 28%, 10 bilhões de euros, no valor dos jogadores das 5 principais ligas de futebol da Europa, onde a KPMG (empresa de serviços de auditoria) também estima que receitas cairão 4 bilhões de euros. A EY (empresa de serviços de auditoria) aponta que clubes brasileiros deixarão de arrecadar entre R$ 500 milhões e R$ 2 bilhões em 2020. O problema é ainda maior porque o futebol brasileiro estava no grupo de risco, cheio de comorbidades: arquitetura institucional arcaica, estrutura de governança obsoleta, modelo de gestão ineficiente e crise de liquidez beirando a insolvência.

Quais podem ser as principais medidas a serem adotadas para atenuar a queda das receitas dos clubes?

— Todos os setores da economia precisarão de ajuda do Governo para sobreviver. O futebol também. A diferença é que ajudar o futebol brasileiro é promover mudanças estruturais. Entidades que exercem atividade empresarial devem se estruturar como empresa, pagar impostos, correr riscos de mercado com o patrimônio investido e responsabilidade dos administradores. Rodrigo Monteiro de Castro e José Francisco Manssur colocam muito bem: “Antes da COVID-19, a crise futebolística já estava posta, e já se formava consenso – exceto entre os beneficiários daquele sistema – a respeito da inviabilidade do modelo brasileiro.” Não seria hora de transformar o futebol num vetor econômico que ajude o país, ao invés de seguir financiando entidades esportivas insolventes com dinheiro público? Atenuar a queda nas receitas não é suficiente e a demora em tomar medidas agrava os problemas. O Poder Público pode, por exemplo, apoiar a cadeia produtiva do futebol via BNDES, como faz com o Fundo Setorial do Audiovisual, que já investiu mais de R$ 200 milhões, o BNDES Saúde, que financia a modernização da gestão, da governança e da eficiência operacional, visando à sustentabilidade econômico-financeira de instituições filantrópicas, e o Fundo Social, que prevê investimentos em desportos. Recursos das loterias, que nos últimos cinco anos destinaram R$ 427 milhões aos clubes de futebol, poderiam ser antecipados, desde que desvinculados dos financiamentos que garantem atualmente. A FINEP pode viabilizar investimentos para estruturação dos clubes em empresas e dos projetos a serem apresentados ao BNDES, como due diligence contábil e jurídica, estudos de viabilidade econômica etc. O Congresso pode aprovar legislação favorável ao Clube-Empresa, como o Projeto de Lei do Deputado Pedro Paulo, em tramitação no Senado depois de aprovado quase por unanimidade na Câmara, e aprimorar as Leis de Incentivo, como defende o deputado (federal) Marcelo Ramos no “PL Alcino Rocha”, que facilita doações de pessoas físicas em até R$ 6 bilhões/ano. Os clubes podem criar a liga e melhorar o ambiente de negócios do futebol brasileiro, com mecanismos coletivos para garantir sua saúde financeira. Também podem securitizar recebíveis como sócio-torcedor, que subiram mais de 40% nos últimos cinco anos, ultrapassando R$ 400 milhões/ano. A CBF pode estruturar uma linha de crédito e fomento para clubes e articular junto à Fifa a regulamentação do investimento em direitos econômicos de jogadores para atrair recursos novos, a exemplo do que ocorria até 2015. Esses são apenas alguns exemplos que poderiam ajudar o futebol a sair mais forte desta crise. Cada um só precisa cumprir o seu papel.

Você vê algum clube brasileiro ou estrangeiro como modelo (ou perto disto) em algum aspecto diante deste cenário?

— Não há modelo. O Papa Francisco ressalta que “neste período, muitas manifestações foram suspensas, mas vêm à tona os frutos do esporte: a resistência, o espírito de equipe, a fraternidade, o dar o melhor de si”. A plataforma da MLS potencializando esforços da liga, clubes e futebolistas no combate ao COVID-19 estimula o engajamento de todos no combate à pandemia. A Federação da Espanha abriu linha de crédito de 500 milhões de euros para clubes, e jogadores do Barcelona cortaram seus salários em 70% para que outros funcionários do clube recebessem integralmente. A Premier League destinará 125 milhões libras aos clubes das outras divisões, 20 milhões de libras a profissionais de saúde, e seus jogadores esperam arrecadar mais de 4 milhões de libras (#PlayersTogether) para o Serviço Nacional de Saúde. Os quatro times alemães na Liga dos Campeões criaram fundo de solidariedade de 20 milhões de euros para apoiar os demais. Jogadores da Juventus renunciaram a quatro meses de salário, economizando 90 milhões de euros para o clube. O Benfica e seus jogadores doaram mais de 1 milhão de euros para o combate à pandemia. A Fifa anunciou fundo com suas reservas financeiras, que chegam a quase 3 bilhões de dólares. A CBF acena com quase R$ 40 milhões, dos quais R$ 1 milhão para árbitros e R$ 19 milhões para clubes das Séries C e D. Também articula campanha com a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), como faz o Corinthians na ação “sangue corinthiano” e a Budweiser, nos Estados Unidos, com ligas e times estimulando doação de sangue, e se movimenta em ações coordenadas entre clubes e instituições de todo país, tanto pastorais como de voluntariado. O Internacional organiza ligações dos jogadores para sócios-torcedores idosos. O Bahia faz conscientização com artistas e jogadores. Flamengo, Botafogo e Fluminense estão na campanha do Viva Rio. O Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem, com jurisdição estatutária da CBF, CBB e CBV, já arrecadou quase R$ 1 milhão em doações. Há boas iniciativas. Os desafios são enormes. A lógica é uma só: quem pode ajudar, tem que ajudar.

Pensa que este é o momento ideal para reformular o futebol brasileiro e seu calendário? Por quê?

— A reformulação estrutural é questão de sobrevivência e o tema do calendário também precisa ser enfrentado. Faz sentido que a maioria dos clubes (quase 90%) joguem apenas quatro meses por ano?

Você é defensor do modelo clube-empresa. Acredita que continua sendo viável a adoção deste modelo de gestão em um cenário de crise econômica e indefinição em que os investidores estarão mais cautelosos?

— Agora mais do que nunca. Numa empresa, há responsabilização dos gestores e o patrimônio investido pelos sócios responde pelas falhas da gestão. Praticamente 90% dos jogadores brasileiros recebem até dois salários mínimos. Se clubes fossem empresas, resolveriam a questão salarial através dessa linha de crédito emergencial que o Governo lançou para financiar a folha de pagamento pelos próximos dois meses. O Brasil é o maior exportador de jogadores do mundo e não recebe nenhum investimento. Até brasileiros preferem investir no exterior, como é o caso do Ronaldo no Valladolid e do Flávio Augusto no Orlando City. Onde tudo é de todos, nada é de ninguém. Futebol profissional é negócio de bilhões, não pode mais ser gerido em estruturas de contar tostões. Empresas vão à falência, bens são leiloados e paga-se o possível a credores. Por que carregar eternamente um passivo que impede o desenvolvimento pleno da atividade e prejudica o país inteiro? Nos Estados Unidos, a USA Rugby pediu recuperação judicial por causa da pandemia. Se não se recuperar, encerra atividades, paga o que puder e a modalidade recomeça em nova entidade. Os juristas Luiz Roberto Ayoub e Pedro Teixeira, que há tempo defendem a tese da Recuperação Judicial para clubes brasileiros, já superendividados antes da pandemia, conseguiram inclusive sensibilizar o deputado (federal) Pedro Paulo, que incluiu o tema no PL Clube-Empresa. Por que não pensar nessa crise como freio de arrumação, apurar o prejuízo e reestruturar o futebol brasileiro? Enquanto ninguém investe no Brasil, na Inglaterra, mesmo nessa crise, o fundo soberano da Arábia Saudita está comprando o Newcastle United por 300 milhões de libras.

O São Paulo adotou uma redução salarial (50%), de forma unilateral, e prometeu pagar esses valores faltantes depois, além de congelar os direitos de imagem. Há o risco de os atletas procurarem meios legais para processar o clube? Ou até pedir uma rescisão contratual?

— Há risco, sim, e não se resolve problema coletivo individualmente. O clube estaria mais seguro se tivesse negociado com o Sindicato Estadual. A fragilidade da arquitetura institucional do futebol brasileiro pode custar ainda muito mais caro nesse momento de crise. Principalmente nessas questões trabalhistas. O Sindicato Nacional dos Jogadores ainda não tem Carta Sindical. A base da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf) não tem Sindicatos Estaduais de SP, BA, SC, GO, ES, DF, MA e MG, que englobam mais da metade dos atletas. A falta de representatividade é tanta que jogadores da Serie C pediram ajuda diretamente à CBF. E mais: a própria Fenapaf, em nota oficial, desautorizou seu Presidente por concordar em reduzir o intervalo de descanso entre as partidas. Os clubes, sem liga e na confusão entre dois sindicatos patronais, Sindafebol e Fenaclubes, negociaram com a Fenapaf através da Comissão Nacional de Clubes, prevista no Estatuto da CBF, que reúne cinco clubes da Série A, dois da B, um da C e um da D, com a incumbência de “fazer sugestões visando a assegurar o equilíbrio competitivo, a modernização organizacional e a integridade das competições nacionais de futebol, podendo representar as entidades de prática desportiva de futebol em comitês e comissões da CBF”. Um lado sem legitimidade, outro sem atribuição nem personalidade jurídica, por maior que fosse a boa vontade, seria possível algum acordo?

Caso o futebol volte em breve e alguns atletas se recusem a entrar em campo, como ficaria a relação entre as partes nessa situação? O clube poderia punir o jogador? O jogador poderia entrar na justiça por conta de o clube colocá-lo em uma situação de risco?

— Não se pode obrigar ninguém a colocar sua saúde em risco. Nesse momento, há uma série de impedimentos legais para que o futebol retome suas atividades. Estados e Municípios são responsáveis pelas licenças e alvarás necessários à realização de eventos esportivos. Enquanto medidas mais duras de distanciamento social estiverem em vigor, é praticamente impossível que o futebol retome suas atividades. Entidades esportivas também estão conscientes das suas responsabilidades. A Federação Paulista de Futebol, por exemplo, declarou que a prioridade é a preservação da saúde e que sua Comissão Médica está trabalhando num protocolo de segurança. Se todos os envolvidos estiverem testados e saudáveis, seria possível jogar com os portões fechados? Com todas as licenças e autorizações, num ambiente seguro, alguém se recusaria a jogar?