“Flu x Botafogo em Recife, não. Nunca, jamais”, critica jornalista

“Flu x Botafogo em Recife, não. Nunca, jamais”, critica jornalista

A confirmação do clássico entre Fluminense e Botafogo, o mais antigo do Brasil, para a Arena Pernambuco revoltou o jornalista Ricardo Gonzales. Em seu blog “Entre Canetas”, do site Globoesporte.com, o editor do Sportv critica a cultura excludente que permeia o futebol tupiniquim. Confira:

“Eu juro que tento deixar o assunto Maracanã de lado. Já percebi, estarrecido, que, se ainda há muita gente que viveu momentos importantes na vida nesse estádio e valoriza a nova versão, mais moderna e confortável, uma parte das gerações mais jovens não lhe dão a mínima, não têm com esse templo a menor empatia. Não são muitos, mas são bem mais do que eu poderia jamais supor um dia. O curioso é que alguns dos argumentos são de que o estádio agora está confortável, moderno, não pode mais ter preços populares. Ah, entendi. Esses meninos acham, então, que quem não tem muito dinheiro não tem direito a conforto, é isso mesmo?

Desde a tal globalização, estou aprendendo, com alguma resistência, que os novos tempos são excludentes. Explico: quem gastou dinheiro, por exemplo, numa boa coleção de filmes em VHS, tem que jogar tudo no lixo porque não se fabricam mais videocassetes. Ou gastar mais dinheiro – transformando-os em DVDs ou recomprando os mesmos filmes em DVD. E muitos que já fizeram isso, já tiveram de perder mais dinheiro comprando Blue-rays. Felizmente todos estamos com dinheiro sobrando.

Não sou contra quem só curte o novo. Quem só se sente feliz comprando o último modelo de qualquer coisa. O que me irrita é a tentativa de destruição da nossa memória. Sou contra a ditadura do novo, não contra o novo. Contra a exclusão compulsória de quem quer ficar com o antigo. Por que não podemos ter Blue-rays e video cassetes? Porque não podemos ter MP3 e vinil? Policio-me muito para não ser rotulado como saudosista, mas temo que, se hoje as coisas antigas não servem para mais nada, o sistema caminha para, no futuro, descartar a utilidade também dos seres humanos mais velhos.

Mas isso tudo é assunto bom para o botequim. Aí… ontem me chega a notícia de que o clássico mais antigo do Rio, Fluminense x Botafogo, será disputado na Arena Recife. Já havia sido confirmado que o Flamengo jogará em Brasília contra o Coritiba. Mas um clássico… desculpe-me a garotada, mas não dá pra morrer sem berrar. Pra mim isso é o fim dos tempos. É caso de polícia.

Vou repetir para quem estiver disposto a entender. Não acho que os clubes tenham que aceitar esse escárnio de virarem escravos de um consórcio que não está nem aí para a cultura popular do Rio. Acho que ele não têm mesmo que usar o Maracanã nas condições absurdas impostas pelos consórcio. Pelo contrário, os clubes são gigantes e, como tal, têm de se impor e exigir o direito de usarem o Maracanã, como sempre fizeram, em condições justas para todos, e não só para quem se apoderou da chave, com a complacência do poder público.

Acho que os clubes devem criar condições para terem suas próprias arenas. Ótimo. O Vasco, que já tem São Januário, tem todo o direito de jogar em casa quando quiser. Mas se quiser jogar no Maracanã, um templo à altura de suas tradições, tem de poder jogar, não pode ser OBRIGADO a jogar em outro lugar. Continuo a repetir: o poder público precisa intervir e exigir do consórcio Maracanã um postura decente. Lucro, sim. Exploração, não. Fluminense x Botafogo em Recife, não. Nunca, jamais.

E aos que não sentem falta do Maracanã ou acham-no supérfluo, meus parabéns. Eu posso dizer que fui muito lá, vivi grandes momentos lá, vibrei com as jogadas de Pelé, Rivellino, Zico, Roberto, passando pela geração Bebeto, Romário, Assis, Maurício, depois com Edmundo, Túlio, Renato Gaúcho, Petkovic, mais recentemente com Fred, Adriano, Loco Abreu, Juninho, Felipe. E gostaria acho que os jogadores de hoje, Rafinha, Lodeiro, um gênio como Seedorf, também desfilassem seu talento no bom e velho Maracanã.

Mas se ninguém quiser fazer nada para impedir esse crime de lesa-futebol carioca, eu já vivi bastante. Posso morrer feliz”.