Foto: Lucas Merçon/FFC

Acompanho o Fluminense há 40 anos.

Escrevo aqui na Flupress há sete outonos e não me lembro de precisar fazer um post sobre uma situação tão absurda envolvendo um jogador do clube.

Juro que resisti. Esperei. Ponderei. Tentei entender.

Mas chegou numa situação-limite entre escolher o silêncio dos covardes ou o prejuízo ao Fluminense.

Não dá mais pra fingir normalidade. Porque não é normal.

O Fluminense, instituição centenária, está aos pés de Nenê.

O histórico do Nenê com situações em que foi pro banco é complicado. Houve problemas no Vasco, houve muitas reclamações no São Paulo, até que veio para o Fluminense onde iria jogar mais. E até no Fluminense, onde joga muito o tempo todo, faz bico quando sai e basta meio jogo ruim de quem entra no seu lugar para o camisa 77 voltar com titularidade absoluta.

Eu fui contra a contratação. Pelo péssimo histórico do atleta com não ser escolhido pra começar os jogos, mas principalmente porque acredito num outro tipo de jogo, que não cabe Nenê.

Mas reconheçamos. Nenê não é mau jogador. Foi útil em alguns momentos. É bom finalizador de média distância, bate bem na bola, tem bom aproveitamento nos pênaltis (apesar de sábado) e não há problema em compor o elenco do Fluminense.

O problema é a minutagem. Amigos, estamos falando do óbvio. Entre as opções no elenco não há problema em Nenê ser o preferido de todos. Até há, mas vamos concordar que a diferença entre os que disputam essa posição não é enorme, a ponto de um jogar alguns jogos mais de 80 minutos (a maioria mais de 60), o outro uns 10 e o outro 0.

É sabido que com o passar do tempo de jogo cai o rendimento e em algum momento quem está no banco passa a ser uma melhor opção do quem está em campo cansado.

Num futebol que pede deslocamentos constantes, pressão na bola, mobilidade, num modelo (o do Roger), que privilegia desarmes/interceptações e saída em transição, não dá pra jogar meia boca porque precisa se poupar já que tem a certeza que só sai depois da metade do segundo tempo. Isso não aconteceu com nenhum jogador do Fluminense.

Vou dar o exemplo do Deco (outra prateleira em relação a Nenê). Em 2010 chegou muito fora de forma. No empate com o Goiás, Muricy o tirou no intervalo. Foi banco em vários jogos. Nunca fez confusão. E foi campeão como todo o grupo. Deco, campeão europeu duas vezes, mundial, brasileiro…

Grupo, elenco, união…

Nenê é individualista. Talvez isso explique uma carreira com bons números e nada de títulos. Nenê tem 1 título importante na carreira (campeão nacional pelo PSG 2012/2013). Foi titular em 5 jogos na campanha e saiu do clube no meio do campeonato. E tem um título carioca pelo Vasco em 2016.

Como explicar que um jogador sem nenhuma história no futebol e no Fluminense possa ter tanto poder no clube?

Talvez os números. Bons números no Brasileiro de 2020, com alguns gols de pênalti e uma mídia que pouco acompanha o clube ajudaram na narrativa do jogador decisivo. Mesmo que nos jogos em que o Fluminense foi eliminado no mata-mata (La Calera e Atlético-GO) não tenha pego na bola.

Os números nos jogos importantes da temporada escancaram esse absurdo. O Fluminense fez nove jogos importantes na temporada. Nenê jogou os nove. Os seis da libertadores, duas decisões com o Flamengo e a estreia sábado com o São Paulo.

Foram apenas TRÊS lances decisivos, em NOVE jogos. O passe pro Fred contra o Santa Fe, o passe pro Abel contra o Junior e o gol contra o River numa bola desviada pelo zagueiro. É pouco pra tanto minuto em detrimento a outros.

E isso me fez pensar que ele deve ser muito importante em outros quesitos. Roger, na sua última entrevista, deu a entender a importância que dá aos desarmes/interceptações no seu modelo de pegar a bola e fazer transições. Estipulou até uma meta de 30% de interceptações/desarmes entre os quatro jogadores de frente.

Meta que foi cumprida contra o São Paulo, num ótimo jogo do Fluminense. O time teve 31 ações nesses quesitos. Caio Paulista teve 7, Gabriel Teixeira 3, Abel 2 e Nenê 0. Ou seja, meta cumprida, apesar do Nenê.

O jogo com o São Paulo foi o cúmulo do absurdo. Perdeu o pênalti, não roubou bolas e acertou apenas 10 passes. Isso lhe rendeu 85 minutos em campo. Inacreditável!

Nenê repetiu o número de 0 desarmes e 0 interceptações em outros jogos. Na derrota para o Flamengo (final de campeonato e 68 minutos em campo com apenas 7 passes certos) , no jogo contra o Junior lá e contra o Santa Fe aqui. Ou seja, de nove jogos, em quatro ele zerou nos quesitos.

Em outros quatro ele conseguiu fazer um desarme/interceptação uma única vez. Somando dá quatro em oito jogos. E vocês sabem em que jogo Nenê teve seu melhor aproveitamento no ano?

Exatamente no jogo em que foi barrado, na derrota para o Junior no Maracanã. Entrou e conseguiu, além do passe pro gol, dois desarmes e 14 passes certos (82,4% de aproveitamento no quesito).

O aproveitamento de passe do camisa 77 também é muito baixo pra um meia. Apenas em três dos nove jogos, ele supera os 80% de acerto. No jogo de sábado esse número foi de 55,6%, péssimo.

Roger tem esses números. Todos têm. O que torna ainda mais vergonhosa e inexplicável essa situação. Nenê pode ser útil. Nenê pode ajudar o Fluminense a conquistar os objetivos traçados na temporada.

O que não pode acontecer é o Fluminense ser o meio pelo qual Nenê busca seus objetivos pessoais. É uma relação desequilibrada. Enquanto o “vô tá on”, a instituição “tá off”.

CHEGA!

Tabelinha

– Antes que comecem, não é um texto pró-Ganso ou Cazares. No modelo Roger, minha escolha seria mais um menino por dentro.