(Foto: Lucas Merçon/FFC)

Odair e o Departamento de Futebol do Fluminense tiveram um erro de avaliação: Após as finais do Carioca, consideraram um não vexame, algo que pudesse dar frutos e servir como modelo no campeonato brasileiro.
Após os 3 jogos contra o Flamengo, amistosos contra o Botafogo e os dois primeiros jogos contra Grêmio e Palmeiras, com exceção de um segundo tempo contra o Fla, todos jogos muito pobres, houve uma mudança no time no intervalo do jogo com o internacional (também com um péssimo primeiro tempo) que melhorou demais o rendimento do time.

Antes de falar dessa mudança específica, houve algumas mudanças pontuais de jogadores que trouxeram também um ganho coletivo.

A entrada do Lucas Claro

se a gente pegar os números do zagueiro veremos que a quantidade de interceptação é muito alta. Maior até que a do desarme. Desarme é tirar a bola do adversário e interceptação é fazer ela nem chegar. Lucas tem números excelentes nesse segundo quesito o que acelera a transição defesa-ataque. Velocidade poder de recuperação, um contra um, coberturas, tá difícil encontrar falhas nas últimas atuações do zagueiro. Buscando a perfeição, se começar a carregar a bola e levar o time pra frente qualificando a saída será muito bom pra ele e por Flu coletivamente.


A entrada de Yuri no lugar do Hudson

Yuri não é craque. Mas tem uma leitura muito correta pra se colocar pra receber passes, funcionar como opção, tocar, sair, dar essa fluidez no jogo, porque tanto ele quanto Dodi possuem essa mobilidade. Nos dois últimos jogos já conseguimos vê-lo atacando linha de fundo como todo meio campista moderno deve fazer. Hudson é mais lento, joga mais preso, quase como um terceiro zagueiro. Não é uma questão de melhor ou pior, é questão de adequação ao sistema. Yuri é mais adequado que Hudson pra fazer esse Fluminense jogar bem.
Voltando…

No intervalo do jogo com o Inter, Odair faz uma inversão e leva Michel Araujo pro lado e Nenê pra dentro, trazendo o veterano de volta a jogar por trás do Evanilson como fazia antes da parada.
Uma troca que melhora duas posições.

Odair sempre deixou muito claro o que quer de seus jogadores de lado. Carregar pra dentro e abrir espaços pros laterais, o que faz com que o time ataque com mais gente. Só que Nenê aberto (a maior incoerência de Odair no Flu) não tem a força do arraste pra dentro do Michel, não tem a capacidade de afundar com o lateral , brigar pelas bolas que tem o uruguaio.

Michel faz tudo isso. Se junta ao meio pra criar superioridade, acelera pelo lado, briga, volta pra fechar.

Em compensação, por dentro, Nenê flutua mais e consegue jogar numa faixa de campo onde seus chutes e cruzamentos podem fazer mais diferença. Joga numa faixa de campo que praticamente o obriga a ser mais rápido pra tocar, pra fazer o time jogar (algo que não ocorreu com o Vasco). Nenê joga livre pra abrir na ponta, pra se juntar a Evanilson e a volta na marcação se dá mais em cima do primeiro volante (odeio essa palavra) adversário, o que é menos desgastante do que afundar com lateral e correr na puxada em velocidade.

Nesse segundo tempo contra o Inter, depois de um péssimo primeiro tempo, o Flu joga melhor e vence seu primeiro jogo. Perde pro Bragantino num jogo equilibrado e definido num erro de Egídio e Dodi e na demora do Odair pra mexer (2 substituições contra 5 do Bragantino até o gol da vitória deles).

E, mesmo trocando, 4 jogadores (Julião barrado) e 3 titulares (Nino, Nenê e Evanilson), mantém a estrutura e ganha um jogo lá na Arena do Baixada, lugar que todo mundo encontra dificuldade. O Fluminense faz um jogo forte no primeiro tempo, de muita agressividade e intensidade e de controle no segundo. Foram 4 chances claras contra apenas 2 do adversário no fim do jogo.

A história se repete no jogo contra o Figueirense. Começa o jogo com tudo, faz o gol, volta do intervalo, faz outro gol e controla. E, de novo, contra o Vasco, primeiro tempo muito forte, gol, chances criadas (foram 5, recorde até aqui) e jogo de controle e bloco mais baixo no segundo tempo.

O padrão é esse e funcionou bem essa semana, nas 3 vitórias consecutivas.
Três vitórias que levam o Fluminense à parte de cima da tabela no início do campeonato, o que começa a mudar a perspectiva de boa parte da torcida. E é pra mudar mesmo. Teremos esse ano um campeonato ou campeonatos com jogos seguidos de outros, onde o equilíbrio e o baixo nível dos times será a tônica. Não tem bicho papão, nem time invencível.
Até o Flamengo, que termina 2019 com um abismo em relação aos outros, já volta a ser um time em formação de uma ideia sem tempo suficiente pra colocar em prática.


Nas nossas lives do youtube na segunda feira temos batidos nessa tecla: Dá pra sonhar com coisas maiores do que apenas brigar pra não cair.
Odair não seria meu treinador. O modelo que me agrada é outro. Mas apesar disso eu sempre defendi a permanência porque entendo que treinador precisa de tempo pra implementar suas ideias, conhecer jogadores, entender onde rendem melhor.


Num ano que o Fluminense recebeu muitos jogadores e com uma parada enorme no meio, não é simples esse trabalho. E, a gente que procura analisar futebol precisa ter em mente que uma coisa é o treinador não pensar futebol como você e outra é aquilo não funcionar.

Simeone e Mourinho por exemplo não são treinadores que enchem meus olhos, mas inegavelmente vencedores dentro de suas ideias O Fluminense de Odair não funcionava e não iria funcionar naquela estrutura e principalmente com aquele jogo sem agressividade e sem coragem, que especulava demais e buscava de menos.

Isso mudou. O Flu, hoje, entra em campo buscando, agredindo e tem sido agraciado com gols nos primeiros tempos dos jogos e, eu não tenho dúvida, se continuar sendo coerente nas escolhas, com um time de muita mobilidade e que é capaz de pressionar o adversário, negar espaços e conseguir buscar essa bola mais à frente, diferente daquele time que recuava todo em bloco baixo, a chance de um bom ano aumenta exponencialmente.

Pra isso Odair precisa ter muita coragem também fora de campo.
Nas substituições, nas mexidas e na escolha dos que jogarão mais e menos.
Vamos a elas:

– Não faz sentido o substituto do Yuri ou Dodi ser o Hudson. Não tem a mobilidade pra fazer essa bola rodar, se apresentar e chegar na frente. Tira do Flu algo que ele conseguiu que é ter dois meio campistas muito móveis que ditam ritmo e dão opção pro controle do jogo. Yuri ou Dodi saem, a solução é Yago, André e Martineli da base. De novo aqui não se trata de melhor ou pior e sim de adequação

– Não dá pra colocar num jogo Hudson, Ganso (ou Nenê) e Fred. Nem num meio campo que joga com 3 jogadores, dois serem Hudson e mais um veterano. Ok, funcionou contra o Vasco mas pontos escorrerão pelo ralo caso joguem todos ao mesmo tempo. Não faz sentido com o modelo proposto.

– Nenê. Odair precisa fazer duas coisas com o Nenê. A primeira é tirar mais rápido de campo e poupar mais vezes. A segunda e mais importante é dentro de campo. Precisa fazer o Nenê ser mais posicional. Vou explicar. Nenê funciona pra finalizar, pra cruzar uma bola… Nenê não funciona quando volta pra uma faixa de campo onde se organiza o jogo, onde se constrói uma ataque. Nenê segura demais e tira muito a velocidade do jogo.

Ganso. É o contrário do Nenê. Não adianta colocar por trás do centroavante numa área em que precisa flutuar mais e mais povoada. Não é grande finalizador. Em compensação é um mestre em organizar e dar velocidade ao jogo, em resolver o lance com uma bola. Precisa de mais minutos, jogando junto com a molecada que orbitaria a seu lado, dando opções de passe qualificado e ninguém no elenco faz isso melhor que ele.

Pausa pro lance do gol do Fred. A solução que Paulo Henrique acha é uma mistura de raciocínio rápido, técnica ( a caixa de ferramentas do jogador) e criatividade ( a capacidade que um jogador tem de resolver um problema de forma não comum e mais eficaz). O passe entre as canetas é pra ver, rever e vale o ingresso. Tentem ver devagar o giro que ele faz com o pé quando o marcador já fecha as linhas de passe.

– Welington Silva. Não tem mais velocidade pra atacar espaços e receber lançamento. Portanto, se o jogo pedir essa característica, o nome é o Pacheco.

– O substituto do Araujo é outro canhoto com arraste, juventude e força: Luis Henrique.

 
 
 

O Fluminense precisa tratar dessa forma a transição base-profissional. Com minutagem progressiva, sem titularidade absoluta em todos os jogos, mas também sem tirar dos meninos espaço pra jogadores veteranos que não irão se desenvolver mais e que sequer foram bons jogadores no seu auge.
André, Martineli, Frazan estão nessa situação.

E Calegari é o inverso. Foi lançado como titular absoluto sem sequer ter jogado uma séria A. Não está pronto. Ser superior ao Julião não é suficiente.
Espero que Odair, agora que encontrou uma ideia competitiva, não abandone isso ao longo da temporada, usando os jogadores de forma coerente com o modelo que ele próprio escolheu e tenta implementar. Já há um padrão e se não na totalidade, há ali conceitos sendo adotados que vão ao encontro de premissas do futebol atual. Isso é bom e faz o Fluminense competitivo.

Por fim, é muito bom voltar a ter aquela sensação boa de esperar o próximo jogo do Fluminense.

Essa quarta feira não chega nunca!