Mário, como presidente e homem forte do futebol, precisa provocar mudanças no modelo de jogo do Fluminense (Foto: Lucas Merçon/FFC)

Não é justo dizer que o Fluminense não tem um modelo, um padrão. Ele tem. Nos últimos dois anos, com uma ou outra mudanças, o Fluminense tem uma cara. O que podemos fazer é refletir acerca desse modelo. É sustentável? Desperta interesse? Pode trazer títulos importantes? Daria pra ser melhor com o orçamento disponível? E, por fim e mais importante, o que se pode fazer pra transformar campanhas razoáveis em disputa efetiva por título?

Em primeiro lugar é importante salientar que esse texto poderia ser escrito em qualquer momento dos últimos meses. Tanto nas vitórias quanto nas derrotas, todas as virtudes e defeitos estão ali presentes.

A entrega e a garra desses jogadores, a união do grupo, a boa gestão de vestiário (os problemas no elenco, se existem, são desconhecidos), a marcação bem feita em bloco baixo com raros momentos de pressão alta, a boa gestão do espaço na sua área e em seus arredores.

Em compensação, a incapacidade na criação de jogadas, a dificuldade nas transições, a incapacidade de trocar passes e controlar os jogos ou de trocar passes que gerem chances efetivas, a pouca quantidade de jogadores que agridem o adversário em busca do gol são problemas que inviabilizam disputas por algo maior.

Quem acompanha os jogos do Campeonato Brasileiro, o jogo da última quarta-feira contra o Internacional resume bem isso. Vai notar que todos os defeitos que foram apontados no time do Fluminense são defeitos comuns a todos os times brasileiros, excetuando Atlético-MG e Flamengo.

O futebol brasileiro, de forma geral, trabalha com organização pro momento defensivo e conta com individualidade e talento no momento ofensivo. E isso é um problema que encontra raízes históricas, na nossa própria formação.

Quando o futebol chega ao Brasil, o povão, barrado nos clubes e que via os jogos (os anglo-brasileiros jogando) de onde pudesse, descobriu que era um esporte muito mais fácil de entender e copiar do que o críquete.

E, no bate-bola informal das ruas, foi desenvolvendo uma concepção do jogo baseada em habilidades individuais não inibidas por nenhuma proibição, ou seja, sem nenhuma organização ou disciplina.

O antropólogo Roberto da Matta formulou a teorinha do “jeitinho” para explicar a criatividade que tanto nos orgulha, propondo que como as leis eram feitas sempre para proteger os ricos e poderosos, seria necessário encontrar formas de contornar tais regras.

Com isso, os brasileiros aprenderam a confiar muito mais em si mesmos do que em estruturas externas, encontrando uma maneira própria de resolver situações, o que requer um alto nível de criatividade e reflete num baixo nível de confiança do trabalho em equipe.

Fica claro, portanto, que o brasileiro sempre confiou mais na expressão pessoal do que no trabalho em equipe. As próprias Copas do Mundo que o Brasil venceu sempre foram a junção de organização sem a bola com grandes talentos que desequilibravam partidas.

Mas o jogo mudou. A ciência evoluiu, a preparação física ganhou corpo, a ocupação de espaços “diminuiu o campo” e o talento passou a servir ao coletivo e não o inverso.

Ontem de tarde, por exemplo, um PSG com Neymar, Messi e Mbappe, três dos maiores talentos de todos os tempos, sucumbiu à coletividade de um City que não possuía em campo nenhum jogador cotado a melhor do mundo.

As últimas seleções campeãs do mundo Espanha, Alemanha e França, foram, nas Copas, expressões bem acabadas de jogo coletivo, enquanto os dois extraterrestres que dominaram individualmente todas as marcas do futebol nos últimos 15 anos, sairão de cena provavelmente sem ganhar Copa do Mundo, pois suas seleções (Argentina e Portugal) são incapazes de oferecer esse jogo coletivo.

Tá bom, mas o que isso tem a ver com o Fluminense? Tudo.

Sem dinheiro em caixa pra contratar grandes talentos, o Fluminense, se quiser disputar títulos, não cair pra Barcelonas e La Caleras e não perder pontos preciosos num campeonato de pontos corridos, precisa evoluir no momento ofensivo do jogo e nas transições.

Sem disponibilidade financeira para contratar grandes talentos, todo o trabalho precisa ser direcionado no sentido de aplicar conceitos que todos os grandes times aplicam e muitos deles dependem mais de treinamento e metodologia do que propriamente de talento.

Se jogar com três “volantes” (odeio essa palavra, mas vou usar) dificulta minha capacidade criativa, pode facilitar minha roubada de bola em campo ofensivo e minhas transições podem ser mais rápidas. O Liverpool ganhou tudo assim, com três jogadores desses no meio e um time que aposta muito em transição e pressão pós-perda. Basicamente, você não precisa de grandes talentos pra executar isso, é muito mais gerenciamento de espaço.

Se abre mão dos volantes pode conseguir, através de passes mais qualificados, empurrar seu adversário pra trás e posicionar jogadores na última linha pra atacar esse espaço (Guardiola vem dando aulas de 2-3-5 em momento ofensivo revisitando o início do futebol). No futebol cabe tudo. O que te define é sua intenção.

O Fluminense de hoje ataca pensando em defender. Seus dois jogadores de transição (lado de campo) defendem na linha dos zagueiros porque precisam o jogo todo dar esse apoio.

Seus jogadores de meio jogam quase colados na última linha defensiva em bloco baixo e, na retomada, apenas um deles carrega essa bola pra frente, quase sempre isolados.

A forma como o Fluminense se defende define a forma como ele ataca e, por isso, ele tem muita dificuldade na transição, feita basicamente por um jogador que carrega a bola até não aguentar mais. E vice-versa, o time leva poucos gols em transição adversária porque ataca com pouca gente, logo tem mais gente pra defender.

A busca pela excelência requer evolução num modelo que leva a Libertadores (ou pré), traz segurança quanto ao não rebaixamento, mas que inviabiliza por completo voos mais altos.

Se não houve uma queda, também não houve evolução nenhuma de 2020 pra 2021. Dá pra acreditar num 2022 sem ser eliminado por um clube equatoriano e pensar em mais do que as atuais 14 vitórias em 35 jogos do Campeonato Brasileiro.

Entretanto, como eu disse acima, é preciso intenção. O Fluminense precisa buscar isso, ao contrário da segurança de ser um time de meio de tabela, que de vez em quando incomoda os “grandes”.

Tabelinha

  • Bom demais voltar ao Maracanã ontem (quarta). E de novo a torcida apoiou o jogo todo, ainda mais vendo a entrega do time em campo. É inacreditável que há semanas tentaram estabelecer uma narrativa que a torcida atrapalhava o time.
  • Treinador preferido: Tempo. Não pode ser modus operandi pelo quarto ano seguido começar um trabalho, interromper no meio e finalizar com o Marcão