(Foto: Mailson Santana - FFC)

Campeão brasileiro com o Fluminense em 2012, o atacante Wellington Nem conversou com exclusividade com o NETFLU e comentou sobre diversos assuntos. Desde sua melhor época com a camisa tricolor, há oito anos, até sua última passagem pelo Time de Guerreiros sem brilho, em 2019. Leia, na íntegra, a entrevista da cria de Xerém:

NF: Você teve uma primeira passagem pelo Flu muito marcante, sendo peça fundamental num título brasileiro. O que mais te marcou naquela conquista?

WN: Minha primeira passagem para o Fluminense foi muito boa, era tudo o que eu sonhava quando era criança, quando fui para o Flu em 2005, com treze anos. Eu sonhava em conquistar títulos, ser ídolo. Não tem nada melhor do que ser campeão pelo time que torce. E o que mais me marcou na conquista daquele campeonato foi a volta do jogo Palmeiras, no caminhão de bombeiro. Ver a torcida, todo mundo feliz, as pessoas chorando, todo mundo celebrando… jamais vai sair da minha memória aquela comemoração. Foi a coisa mais linda que eu já vi na minha vida depois do nascimento do meu filho.

NF: Como foi a sua formação em Xerém e quem (o que) foi mais importante enquanto estava na base?

WN: O que me ajudou na base do Fluminense foi a estrutura, seis campos, alimentação, concentração… tudo de bom e do melhor para eu poder crescer como jogador e pessoa. Só tenho coisas boas, memórias gostosas: fui campeão carioca, na França, no Japão, seleção brasileira… foi incrível participar isso.

NF: Você acredita que teria um aproveitamento melhor da carreira se não tivesse ido para o futebol da Ucrânia? Se arrepende?

WN: Eu consegui tantas coisas vindo para a Ucrânia. Eu não sei te dizer se me arrependo. Pode ser que sim, pode ser que não… naquele momento foi uma escolha boa para mim, mas principalmente para o clube, que precisava vender alguém. Na verdade, a minha vontade naquela época era continuar. Eu lembro que cheguei a chorar indo pro meu último jogo, no avião, quando defendia o Fluminense. Mas a vida é assim. Essas coisas acontecem.

NF: Qual ou quais foram os melhores jogadores com quem você atuou no Flu? Qual deles mais te inspirou?

WN: Para mim foram os Deco e o Fred. O Deco sempre me achava, sempre me procurava nos jogos. É só ver os jogos do Fluminense. Eu tenho um carinho muito grande por ele. Sempre que estou no Rio ele me procura e eu o procuro. Quero a amizade dele para sempre. É um cara que tem um coração gigantesco. E o Fred também. A gente conversava bastante, se achava dentro dos jogos. O estilo dos dois combinava muito comigo. Eles me inspiravam.

NF: Como era a relação do grupo com o Celso Barros entre 2011 e 2012, já que a Unimed bancava os salários. Existia algum tipo de interferência ou coisa do gênero?

WN: Todo mundo gostava do Celso Barros. Naquela época o grupo era muito bom, a diretoria, a comissão técnica, o presidente. Não tinha briga nenhuma. Todo mundo se tratava bem. A gente gostava do presidente (Peter Siemsen), do Rodrigo Caetano (diretor de futebol), do Abel Braga (técnico). Estávamos bem felizes. Por isso ganhávamos praticamente tudo. A gente sempre queria o Fluminense no topo. Não tinha ninguém que não gostasse do Celso.

NF: Após sua ida para a Ucrânia, depois de longos anos, você retornou ao tricolor na temporada passada. Mas entretanto, não conseguiu repetir o sucesso. O que você acha que pesou negativamente na sua segunda passagem?

WN: Acho que eu tive muito pouco tempo para treinar. Eu vinha de férias de 40 dias. Daí eu treinei uma semana e meia e voltei a jogar. A gente também não estava muito bem, perto da zona de rebaixamento. Quando estava o Diniz eu tava começando a jogar, o cara tinha confiança em mim, eu confiava nele… fiquei triste por ele ter saído. Depois chegou o Oswaldo, também tive chances, estava bem, ganhando ritmo de jogo. Depois senti contra o Palmeiras, fiquei dois ou três jogos fora. Aí voltei contra o Santos, quando estávamos com um ou dois a menos. Aí Oswaldo foi mandado embora e entrou marcou. Aí, quando ele veio, só me colocava 15 minutos num jogo e me deixava três jogos fora. Fazia isso outras vezes. Essa foi a sacanagem que fizeram comigo. Entrava quando o time estava perdendo…

NF: Não se sentiu valorizado?

WN: Acho que não me deram o valor que eu merecia. Fiz de tudo pra voltar, baixei salário. Teve propostas de outros times do Brasil que, na ocasião, eram melhores do que a do Fluminense. Mas eu optei pelo meu clube do coração e acabei sendo sacaneado. O futebol é isso. Essas coisas acontecem. A vida é assim. (falou com uma voz extremamente triste).

NF: Se tivesse mais chances, acha que melhoraria em 2019?

WN: Se eu tivesse feito uma pré-temporada, tempo para trabalhar, as coisas seriam diferentes. Eu precisava ter sequência, jogar uns cinco ou seis jogos para pegar ritmo. Não adiantava me colocar só 15 minutos. Acho que foi isso. Mesmo entrando só nesse pouco tempo, eu acho que entrava bem, dava o meu máximo. Mas não tem como um jogador render sem ritmo de jogo. Nenhum jogador rende.

NF: Você se referiu ao Deco e ao Fred como atletas que te inspiravam. Você também tomava muita bronca, principalmente do Fred quando faziam dupla de ataque. Do que ele mais reclamavam? Lembra de alguma coisa?

WN: Eu não lembro muito dessas broncas (risos). Eu sempre fazia a jogada para ele. Às vezes ele ficava meio puto porque eu fazia o lance e finalizava. E o Fred quer sempre a bola pra ele. Mas fomos muitos felizes juntos, a gente sempre se deu muito bem dentro de campo.

NF: Mesmo você tendo aceitado diminuir os salários, ainda teve, assim como o elenco, problemas de atraso recorrentes no clube. Como você e os outros atletas lidavam com isso tendo, ao mesmo tempo, cobranças da torcida?

WN: É muito difícil quando o clube passa por essa situação. Eu já sabia que acontecia isso, já tinha me preparado para isso. Eu me incomodava mais com os funcionários, que às vezes recebia muito pouco, não tinha o que comer dentro de casa, nem dinheiro para ir trabalhar. Era o que mais me deixava triste. Os funcionários de Xerém era o pior, é difícil. E você não estar recebendo e ter cobrança da torcida é complicado, mas sempre acontece isso. Se a gente não vencesse os jogos, a torcida iria cobrar mesmo.

NF: Voltando ao tema Marcão, você acha que havia algum tipo de ordem de cima para que não te escalassem ou que interferia nas escolhas da peça pelo treinador? Por que acha que teve tão poucas chances?

WN: Eu me perguntava isso, falava com o meu pai sobre isso. Não sei. Faltando umas quatro rodadas, quando eu comecei a não entrar, quase que eu peço para não ir mais, pedindo para rescindir meu contrato, devido a tristeza e raiva que eu estava. Mas eu não queria manchar minha imagem com a torcida. As pessoas ali pouco me importavam, só tinha preocupação com a torcida e o clube como instituição. As pessoas ali são passageiras. Dei meu máximo e esperei a chance. E não acho que era ordem de cima, porque eu e o Mário tínhamos uma boa linha de conversa, uma amizade. Acho que não seria por ele.

NF: E a como ficou a sua relação com o presidente do Fluminense depois disto tudo? Segue tendo o mesmo diálogo de antes ou ficou alguma mágoa pela forma como você saiu do Tricolor?

WN: Não ficou mágoa nenhuma. Acho que ele não tem culpa da sacanagem que aconteceu comigo. Torço para ele ser feliz no Fluminense, que conquiste títulos. A torcida merece isso.

NF: Existe diferença entre o Mário advogado, o Mário vice de futebol e o Mário presidente do Fluminense?

WN: Existir existe. Agora ele tem o comando do Fluminense, mas pra mim a única diferença essa, porque antigamente el era advogado e agora ele manda.

NF: O Fluminense ainda te deve algo?

WN: Sim. Quando saí, ficaram me devendo. Mas meu advogado, as pessoas que trabalham para mim já entraram em acordo com o Fluminense, um acordo bom para o clube e já foi resolvido.

NF: Mas o Fluminense já começou a pagar essa acordo?

WN: Não sei. Acho que só depois da pandemia. Os clubes do Brasil estão passando por um momento difícil e o Fluminense está incluso nisto. Acho que só depois (da pandemia).

NF: Você se arrepende de ter aceitado o convite do Fluminense no ano passado? Mudaria a rota se fosse possível?

WN: Eu não me arrependo de vestir a camisa do Fluminense, de poder estar no clube que eu amo, ver meus pais no estádio, entrar no meu filho. Ele agora é tricolor doente, só fala isso. Diz que vai virar jogador do Fluminense. Ver aquele momento da entrada no Maracanã era mágico. Só mudaria a sacanagem que fizeram comigo. O resto eu não mudaria nada. Eu só queria que o Fluminense estivesse num momento bom, estruturado, brigando por título.

NF: Apesar de tudo o que relatou, você ainda tinha a esperança de renovar o contrato nesta temporada. Em algum momento o Flu sinalizou sobre essa possibilidade?

WN: Meu empresário foi até eles para saber se queriam, porque eu ia tentar dar o meu jeito de novo. Mas não aconteceu e eu voltei pra cá. Vida que segue. Acredito que um dia eu vou voltar de novo e serei muito feliz como fui na primeira vez. Que não seja como na segunda passagem (risos).

NF: Fala um pouco daquela confusão toda que houve entre ganso e Oswaldo. Você viu aquilo de perto. Os jogadores ficaram em favor de quem? O que realmente aconteceu nos bastidores?

WN: Eu estava ali perto. Rolou a discussão, um ficou xingando o outro e, quando acabou o jogo, fiquei dando entrevista. Depois fiquei tirando foto com a torcida e fui o último a entrar nos vestiários. Quando desci, a discussão já tinha acabado, eles já tinha conversado. Eu queria que as coisas se resolvessem pelo bem do clube, que o Oswaldo continuasse. Ele era um cara bom comigo, gostava de mim. Quando chegou, ele ficou muito feliz quando me viu, gostava do meu futebol. Acho que eu seguiria jogando se ele permanecesse. Acho que o que ele fez com a torcida (gestos obscenos) foi o que realmente pesou para a saída dele.

NF: Foi uma diferença muito grande para vocês no dia-a-dia de treinos e, até mesmo, na parte psicológica, a saída do Diniz e a entrada de Oswaldo Oliveira?

WN: Pra mim só mudou pelo lado tático, porque o Diniz tem um estilo de jogo e o Oswaldo tem outro. A maneira de lidar com o jogador não tem diferença. Eu não tenho nada para falar mal de nenhum deles. Ambos tinham um coração enorme. Oswaldo ficou feliz quando me viu e o Diniz eu já conhecia do São Paulo, porque era muito amigo do Dorival. E quando eu cheguei ele falou que iria me colocar para jogar, que me colocaria em alto nível de novo. Pena que passei muito pouco tempo com ambos.

NF: Você conhece bem o elenco atual. O que achou da formação do plantel para esta temporada e quem você acredita que possa brilhar pelo Fluminense?

WN: O elenco é bom. Estava indo bem no Carioca, mas o Estadual é totalmente diferente do Brasileiro. Eu gosto muito do Marcos Paulo e do Evanilson. Torço para que tenham todo o sucesso do mundo, por serem do bem, têm coração bom, trabalham. E escutam o conselho dos mais velhos. Isso é muito bom. Torço para que sejam bem sucedidos no Fluminense e, claro, na Europa também porque têm muito potencial.

NF: Você que esteve com os dois ali no clube, acha que dá pra montar um time competitivo com Ganso e Nenê entre os titulares?

WN: Claro que dá! Têm muita qualidade, são profissionais. Dá pra jogar assim, aconteceu no passado. Acredito que possa dar certo.

NF: Como você enxerga essa provável volta de Fred ao clube? Tem conversado com ele? O que ele fala sobre o Tricolor?

WN: Não tenho falado com ele nos últimos tempos, mas fico feliz por essa chance. Ele vai ter todo sucesso. Está e preparando, vejo no Instagram ele se dedicando bastante. Ele vai ser muito feliz de novo na casa dele, que é o Fluminense.