Luta por inclusão social: Pierre trava batalha diária pela filha

Pietra tem paralisa cerebral e sofre com preconceito

Pierre vive a expectativa de voltar a jogar após três meses. Teve de passar por uma artroscopia no tornozelo, mas nada perto da luta diária com a filha Pietra. A menina tem paralisia cerebral e já foi vítima de preconceitos.

– Não queriam deixar minha filha brincar num brinquedo em um parque aquático. São coisas que a gente enfrenta, mas aí me indignei. Ela é normal, ela apenas não anda. Tiveram de chamar a direção do parque, falei que ia chamar a imprensa, aí liberaram os brinquedos. Mas depois de todo o constrangimento, a gente fica magoado – contou Pierre.

 
 
 

Os problemas começaram quando a bolsa da esposa do atleta do Fluminense, Moema, estourou bem antes do tempo. Pietra sobreviveu, mas seu irmão gêmeo, não.

– A bolsa da Moema rompeu com seis meses de gestação. Era um casal, mas o menino viveu 14 horas e morreu. A Pietra ficou três meses na UTI lutando pela vida. Nasceu com 522 g e saiu com 2 kg e pouco. Foi um milagre a Pietra viver, mas depois de um ano soubemos que ela teve sequelas. Numa das paradas respiratórias que ela teve, faltou oxigênio no cérebro, que resultou em paralisia cerebral e afetou a parte motora. Desde que ela nasceu é essa batalha de fisioterapia, equoterapia [terapia com cavalos], terapia ocupacional, fonoaudiólogo. É um preço alto que a gente paga, mas fazemos com muito prazer. A gente tem visto a evolução dela, acompanhamos ela andando sozinha num andador pela primeira vez. Os médicos nunca dão certeza, mas o que alimenta nossa esperança é Deus.  Tenho certeza que veremos o milagre da Pietra andando e sendo independente acontecer. Ela ainda é muito dependente da gente, mas nossa esperança é que ela seja independente, que ela viva a vida dela de forma normal – narrou o experiente jogador.

O preconceito, porém, não aconteceu no parque aquático. Pierre tem dificuldades para encontrar colégio para Pietra.

– No Rio, tivemos muita dificuldade com a inclusão. Não consegui matricular a Pietra em nenhum colégio na Barra no meu primeiro ano de Flu. Fui em uns cinco colégios e sempre tinha uma desculpa. Por lei, a Pietra tem direito a uma mediadora, uma pessoa que fique com ela. Muitos colégios que fui queriam que eu pagasse a mensalidade dobrada. Outros diziam que o colégio não estava adequado, mas era um “não” clássico. Num ponto, a Moema disse que não aguentava mais.  Depois de cinco “nãos”, decidimos deixar a Pietra sem estudar. No segundo ano, conseguimos matricular a Pietra e o colégio abraçou ela de forma maravilhosa. Eles disponibilizaram a mediadora e ela está bem acolhida.  A gente encontra muitas crianças ao longo desta caminhada que não têm condições, a gente vê a luta. No Brasil é tudo difícil, você enfrenta o preconceito de ter um filho especial. Não tem coisa pior para um pai que é receber um não. Só quem é pai de criança especial sabe a dificuldade que é. O Brasil não oferece nada. Pelo meu jeito mais retraído, sofro calado. Fui comprar um andador, uma cadeira de rodas e os valores são absurdos. Eu tenho uma boa condição, mas e quem não tem? Chega a ser revoltante. Isso em colégio particular, imagina no público? Não há condição nenhuma, muita escola não tem nem rampa para cadeirante. Os pais sentem muito esse tipo de situação. Não tem incentivo nenhum, já vi mãe vendendo tudo para comprar cadeira de rodas. Em termos de aceitação, é muito complicado o caso de uma criança especial.