(Foto: Lucas Merçon - FFC)

Em um extenso texto em seu perfil no Facebook, Marcelo Teixeira contou a história de Pablo Dyego. A partir deste jogador, o lema “Faça uma melhor pessoa que teremos um melhor jogador” foi iniciado nas divisões de base do Fluminense. O atacante foi o primeiro a participar do Plano de Carreira e Projeto Internacional. Confira:

“Uma História que Vale a Pena Ser Contada

Já escrevi algumas vezes sobre os pilares que norteiam o desenvolvimento de atletas da base do Fluminense. Tudo sempre suportado pelo lema “Faça uma melhor pessoa que teremos um melhor jogador”. Acho que o momento é mais que oportuno para contar uma história.

Tem uma frase de do Warren Buffer (um super bem sucedido empresário americano) que sempre carrego comigo: “ Não importa quanto grande seja o talento ou o esforço, algumas coisas precisam de tempo. Você não pode produzir um bebê em um mês ao engravidar nove mulheres”

Essa frase combina bastante com trabalho de divisões de base e com o desenvolvimento de atletas no futebol.

Infelizmente o imediatismo que guia a cultura do futebol em nosso país apoiado e amplamente alimentado pelo arcaico modelo político que domina a grande maioria dos clubes de futebol do Brasil, faz uma força tremenda contrária às práticas que deveriam nortear o trabalho realizado pelos clubes de futebol no Brasil.

No final o grande prejudicado é o próprio futebol brasileiro.

Mas deixa isso pra lá por que, o que não tem remédio, remediado está.

Vamos então a história que é o assunto principal desse texto.

Nos primórdios do nascimento de dois importantes projetos das divisões de base do Fluminense, Plano de Carreira e Projeto Internacional, um único jogador foi o precursor de tudo: Pablo Dyego

Pablo foi o primeiro jogador da base do Flu a ser emprestado para fora do país. Pablo ainda muito jovem foi jogar no Djurgardens da Suécia.

E Pablo enfrentou, sozinho (importante destacar), todas as dificuldades que um jovem brasileiro enfrenta quando vai para o exterior, para um país com uma cultura completamente diferente da nossa, com um clima totalmente adverso e sem falar nem o básico do inglês.

Ou seja, não é muito difícil imaginar o grau de dificuldade que esse atleta passou durante o ano em que viveu na Suécia.

A primeira dificuldade sempre começa com a comunicação. Se vc não consegue se comunicar o restante complica bastante. Bastante mesmo. E o frio rigoroso da Suécia ? Onde temperaturas abaixo de zero são bastante normais. Se falarmos da comida a coisa vai se complicando mais ainda. Pergunto quem já assistiu no Netflix a série Vikings ? Quem já viu consegue ter uma ideia de quantas diferenças culturais existem entre os dois povos 😊. Uma cultura totalmente distinta da cultura brasileira. Distância dos parentes e amigos (lidar com a saudade não é fácil). Responsabilidade em ter que cuidar sozinho de sua própria casa, suas roupas, sua comida e demais tarefas que tem que ser enfrentadas por quem vive sozinho. Algumas vezes enfrentar o racismo que os brasileiros, especialmente os negros, são obrigados a encarar na Europa.

E passando para o lado de dentro das quatro linhas pôde-se imaginar o quanto deve ter sido difícil para o Pablo compreender a parte tática do futebol sueco (totalmente diferente do Brasil). Como deve ter sido complicado enfrentar o vigor e a imposição física que no futebol da Suécia são quase tão importantes quanto a bola de jogo (exagerando um pouco claro). E o sistema de treino totalmente diferente ? Modelo de jogo diferente ? Pablo ainda um menino do Sub-20 do Fluminense sendo obrigado a enfrentar atletas com seus trinta e tantos anos em fim de carreira e larga experiência no futebol. Bom lembrar também que muitos campos de treino e de jogo na Suécia são de grama sintética.

Enfim, os dois parágrafos acima destacam algumas dificuldades que esse jovem atleta ainda em formação e desenvolvimento teve que enfrentar no país nórdico.

Um ano se passou e Pablo teve poucas chances de atuar na equipe principal do Djurgardens. Foi para o banco varias vezes e entrou em algumas poucas partidas. Muitas vezes jogou sim, porém pela equipe sub-21 onde conseguiu um certo destaque.

Logo após o retorno do empréstimo Pablo fez parte da equipe Sub-21 do Fluminense que disputou o torneio de pré temporada da MLS, o Disney Pro Classic.

Enquanto todas as equipes da MLS contavam com seus elencos principais o Flu disputava o torneio com uma equipe Sub 21 que foi montada justamente para a disputa do torneio juntando atletas do Sub 20 com atletas pouco utilizados do elenco profissional.

Depois de três derrotas nos três primeiros jogos, no jogo final contra a equipe do Toronto que contava na época com o atual goleiro do Flamengo Júlio César, o atacante ex Vasco Gilberto, Bradley ex-Roma e astro do futebol americano entre outros, o jovem time do Fluminense aplicou uma goleada por 4×2 com Pablo Dyego sendo um dos destaques do jogo ao marcar um gol e dar uma assistência.

E foi ao longo do torneio que o então treinador Marcelo Veiga numa conversa comigo me chamou a atenção da transformação como pessoa que o Pablo Dyego tinha sofrido após viver um ano na Suécia.

Nos momentos de necessidade durante o período do torneio nos EUA, Pablo por ter aprendido a falar inglês na Suécia, liderava o jovem grupo tricolor sempre à frente sem qualquer medo de se comunicar com os americanos.

Dentro de campo a percepção tática de Pablo estava bem a frente de seus companheiros. A capacidade, física principalmente, para enfrentar as equipes adultas da MLS também ficaram claras para todos.

Foram vários outros pontos que chamaram a atenção para a mudança, para melhor, de Pablo.

Estava mais do que claro pra gente que Pablo tinha evoluído como pessoa e que essa evolução pessoal ajudava e muito na evolução do jogador de futebol.

E foi a partir de então que desenhamos a frase que hoje norteia o trabalho da base do Fluminense: “Faça uma melhor pessoa que teremos um melhor jogador de futebol”.

Desde então, diversas ações, ideias, atividades e projetos foram desenvolvidos 
no sentido de atuarmos também no âmbito do desenvolvimento da pessoa que está por trás do jogador de futebol.

Trabalhar o desenvolvimento pessoal/humano de um jogador de futebol é algo bastante desafiador para um clube levando-se em consideração que um atleta fica em média apenas três/quatro horas por dia em suas instalações.

Essa lógica de desenvolvimento da pessoa que está por trás do jogador de futebol é o princípio número um do projeto do Fluminense na Europa, o Flu Samorin.

E esse mesmo conceito está mais do que presente no DNA da base tricolor que fundamenta a Metodologia de Desenvolvimento de Atletas de Xerém.

Fica a torcida para que Pablo Dyego continue sua evolução e se firme como um grande jogador de futebol.

Para ilustrar um vídeo com dois gols do Pablo na temporada passada quando jogou no SF Deltas da segunda liga americana onde sagrou-se campeão”.