(Foto: Lucas Merçon - FFC)

Quando artifícios científicos, mudanças de regras, e aperfeiçoamento do jogar entram em ação, uma partida que era puramente coletiva e de interpretação de movimentos passa a demandar semanas de treinos para que se aprimorem justamente aquilo que sempre existiu no futebol: o coletivo.

Mas coletividade não se emprega apenas em seu conceito básico. Trabalhar em conjunto é fomentar o sentimento e a cultura de unidade. Um time precisa atacar e defender em unidade. Juntos. Para que, assim, existam elementos e argumentos para que o jogo ofensivo e defensivo se desenvolvam, assim como as transições entre eles.

O Fluminense defende mal. E como a análise do clássico contra o Flamengo mostrou, defender mal é uma armadilha para a própria equipe e para qualquer pretensão que tenha dentro das competições que dispute. Porque acima de técnica, tática e estratégia, o sentido maior para o futebol é terminar o jogo com pelo menos um gol a frente do seu oponente e, consequentemente, alcançar a vitória.

E ainda que pareça pragmático e conservador apontar a frase seguinte, acredito que para o contexto do Fluminense – perdas irreparáveis no elenco que iniciou o ano e decisões equivocadas da diretoria, são algumas delas – é a que melhor se aplique. “Time que não toma gol está mais perto de vencer!”. O autor desta frase é um ilustre treinador com quem trabalhei em minha jornada no futebol, e não vejo argumentos maiores para desestruturá-la ou que a faça perder sentido – principalmente em contexto de Brasil.

Bom, exposto isto, vamos aprofundar no que é o Flu de Marcão.

Insistir com Ganso e Nenê juntos talvez seja a maior incoerência. E ainda que esta discussão esteja bastante saturada, muitos dos calos defensivos, e também ofensivos, são potencializados quando as duas figuras estão juntas em campo. O vídeo abaixo elucida isto; ainda que isto seja somente observar o micro.

Quando se olha principalmente pela escalação de quarta, é claro que as peças não se comunicam ou deixam a equipe 100% a vontade para performar. Talvez a melhor virtude do Fluminense seja as combinações que faz. Tem atletas de qualidade para fazer a bola circular, inclusive. Mas circular, trocar passes, não basta. Precisa existir o momento de agredir, de atacar a profundidade, de espetar a defesa do adversário para que se crie imposição em campo. Chegar ao gol é parte da lógica de terminar o jogo com pelo menos um gol a frente do placar.

Mas quando isto não acontece, o macro aponta para os problemas que o time tem em transitar do ataque para a defesa, que foram expostos em pelo menos dois lances antes do gol de Bergson, como mostra o vídeo abaixo, que também aponta para os problemas na raiz da jogada do primeiro gol do oponente.

O Flu desencadeia em si um enorme processo de dúvida a partir de uma vontade de pressionar no campo de ataque, mas que não se traduz em preparo para executar tal ação. A equipe não se unifica próximo a bola e, obviamente, deixa espaços excessivos para o oponente correr quando sobe a marcação. Uma desordem absurda e uma descompactação generosa de setores.

Em um universo mais organizado, Yuri receberia a cobertura de Daniel e poderia pressionar o homem do adversário que lançou Bergson; e anteriormente a necessidade do Yuri avançar, haveria uma pressão mais estruturada no primeiro passe após a recuperação do Ceará, que talvez pudesse vir de Yony e Nenê, jogadores mais próximos da bola.

Como dito, um processo de dúvida que influencia a tomada de decisão individual dos jogadores, e faz a defesa estourar atrás.

Ofensivamente, a equipe se estrutura, mas o passe é sempre horizontal. Daniel foi recuado de vez para a função de construtor junto ao Yuri, mas naturalmente Nenê ou Ganso embolam por ali. Não que seja errado, mas ambos não possuem argumentos para o famoso vai e vem; tocar e passar; ser opção a frente da linha da bola. O primeiro por falta de vitalidade, e o segundo por características.

Logo, passa-se a sobrecarregar peças pontuais e entrar no campo da previsibilidade. Todos sabem que o melhor do Flu sai por ataques em profundidade com os laterais quando sobem juntos, principalmente Caio Henrique. Assim como todos sabem que Yony Gonzaléz seria o maior expoente de profundidade no time que foi a campo ontem.

E o adversário vai se precavendo à medida que bons lances, como o do vídeo abaixo, vão se desenvolvendo.

O jogo envolve diversos elementos e fatores. O mental é o central. Ele é responsável pela perda de confiança e pressão interna para buscar o resultado em adversidade, mas também responsável pelas tomadas de decisões. Tudo isso aliado ao Sistema Nervoso Central do indivíduo que está ali.

Mas o caminho para equilibrar a face mental parte muito da preparação tática; novamente, o coletivo e o sentimento de unidade citados no início do texto, pois estes fatores fomentam a confiança e a segurança pelo “trabalhar juntos”.

Falta muito disso no Fluminense. E este é o caminho para a performance.

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