O modelo e o jogo

A partir do momento em que o Fluminense anunciou o Fernando Diniz deu um recado ao seu torcedor sobre o modelo de jogo que quer praticar. Tratei desses conceitos no último post aqui na Flupress. Hoje falarei de características dos jogadores que se adequam a esse modelo.

De uma conversa entre Guardiola e Juanma Lillo (uma das maiores referências teóricas do jogo de posição) sai esse parágrafo:

“Quando formos observar um jogador que talvez queiramos contratar (o parêntese é meu e dá pra estender o conceito para a formação do jogador) temos que nos concentrar em um dos valores que parecem mais importantes neste momento: se o jogador tem capacidade de conviver com a proximidade do adversário, se mantém ou não a calma quando tem rivais às costas… Se quando pressionado, o jogador se desfaz da bola, mau sinal, mas se ele não muda quando se aproximam, isso é bom.”

Eu tenho recebido muitos questionamentos acerca do elenco do Fluminense, de contratações. Tecnicamente nosso elenco não é bom. Já não era.

Com algumas saídas, outras entradas, não me parece que o nível técnico tenha melhorado ou piorado de forma tão clara. Não acho que quem lê este post mereça discutir Gum ou Matheus Ferraz, Bruno Silva ou Jadson, Yoni Gonzalez ou Mateus Alessandro e por aí vai. Essa é uma discussão menor. O debate pra mim é: O elenco formado será capaz de cumprir/aprender o modelo proposto?

Esse modelo possui exigências próprias para cada posição:

Goleiro – é o iniciador do jogo. O goleiro dever ter qualidade com os pés e grande velocidade de reação. Precisa saber agarrar (óbvio) e saber jogar, uma coisa não pode excluir a outra. O goleiro é também um futebolista, o primeiro do time, por quem passam as primeiras decisões.

Zagueiros – muito similar ao trabalho do goleiro. Devem possuir qualidades de zagueiro como agressividade, velocidade de cobertura, bola alta, mas devem também ter a capacidade de fazer a saída de bola limpa, porque sem ela o jogo não existe. Nesse modelo é inadmissível um meia ou atacante vir buscar a bola no pé do zagueiro porque o cara não sabe jogar. São os defensores que iniciam a viagem ao campo rival. Devem ser velozes, atrevidos e capazes de assumir riscos.

Meio-campista – a frase é de Juanma Lillo e ela pra mim, encerra a questão: “digas com quais meio campistas andas e te direi que equipe és”.

Jogadores de lado – são os caras que ficam abertos colados a linha lateral esperando a bola chegar para efetuar o drible. Esses jogadores não correm 60 metros atrás do lateral adversário, esses jogadores esperam pacientemente a bola chegar ali pra usar seu poder de decisão.

As perguntas quando se planejam elenco, contratações, devem ser feitas em torno dessas questões:

Meus jogadores são capazes de praticar o modelo proposto?

Meus jogadores são capazes de aprender este modelo?

Eu acredito que sim. Eu acredito que um jogador profissional de futebol, a maioria deles, dotados de aspectos motores muito acima da média da população são sim capazes de aprender. Como Fernando Diniz já disse: Esses caras um dia foram os melhores da rua, do bairro, da escola.

Analisando o elenco do Fluminense hoje, as contratações, os jogadores da base que são formados, as prioridades por posição, a gente não consegue imaginar como isso vai se encaixar nesse modelo de características tão peculiares. O que torna o trabalho do Fernando ainda mais desafiador.

A confiança é toda nas boas ideias e na crença no modelo e nas adaptações a ele que serão necessárias em alguns jogos ao longo do ano (não pode ser algo imutável, ortodoxo).

E já aproveitando que estamos em vias de começar um novo modelo no futebol profissional, que ele se estenda para todo o trabalho de base, com novas metodologias e buscando cada vez mais formar jogadores que pensem e entendam o jogo que jogam.

A gestão Peter teve pouquíssimos méritos. Um deles foi melhorar a estrutura física de Xerém.

Faltou, porém, gente competente para formar ou captar jogadores capazes de praticar esse tipo de jogo, que exige cada vez mais entendimento e capacidade de tomar decisões em tempo e espaços cada vez mais curtos.

O próximo presidente possui esse desafio: lotar Xerém de gente capaz de construir um processo de formação integral do atleta, adaptado-o às exigências do futebol moderno. Nesse quesito, Peter, e depois Abad, foram um completo fracasso.