(Foto: Lucas Merçon/FFC)

A goleada por 4 a 1 do Fluminense sobre o Cruzeiro no último sábado veio para lavar a alma do torcedor tricolor no Maracanã após alguns resultados não muito bons. Uma semana antes, o Tricolor havia perdido para o Botafogo por 1 a 0 mesmo tendo sido superior ao adversário durante boa parte dos 90 minutos.

Já na última quarta-feira, pela Copa do Brasil, o Tricolor repetiu a dose, mas também não conseguiu vencer. Na ocasião, o Fluminense finalizou 20 vezes no gol adversário, que por sua vez deu apenas um chute a gol. O resultado? 1 a 1 com o Cruzeiro. O interessante de se notar, porém, foi que a torcida tricolor apoiou o time nos dois jogos mesmo sem o resultado que queria.

Em sua coluna no jornal O Globo, o jornalista Carlos Eduardo Mansur publicou um texto falando sobre o estilo de jogo ousado adotado por Fernando Diniz no Tricolor, que começa a cair no gosto do torcedor. Confira na íntegra:

“Fluminense experimenta orgulho que vai além dos resultados

Dias após a sofrida derrota no jogo que manteria a chance de acesso à Premier League, um grupo de torcedores do Leeds United divulgou uma carta enviada ao técnico Marcelo Bielsa. O argentino é um destes personagens únicos do futebol, dedicado a pregar um jogo atraente, ofensivo e com uma certa pureza de conduta e valores.

“Neste curto período, vimos uma inspiradora virada na qualidade do futebol em Elland Road…O futebol voltou. Juntos, somos leais, determinados, orgulhosos.” Em outro trecho, pode-se ler: “Ainda que não tenha terminado como esperávamos, foi brilhante fazer parte desta temporada… Seu futebol nos fez sonhar de novo.”

Quando torcedores se posicionam desta forma em meio à dor do fim de um sonho, fica mais fácil entender que, em futebol, a forma importa. Ainda que o resultado seja o objetivo. Há formas de jogar que criam identidade, unem uma comunidade em torno de um time. Porque, além de uma camisa, passa-se a defender uma ideia. Mais ainda quando há a certeza de que se é admirado até por quem não veste suas cores. Isso produz orgulho.

Talvez tal percepção não seja tão alcançável numa sociedade tão escrava do resultado quanto a nossa, como observou Jorge Sampaoli após ser goleado pelo Palmeiras por 4 a 0. Questionado por Martín Fernandez — que você lê neste espaço aos sábados — se esperava ver no Brasil ou na Argentina uma reação similar à gratidão pela forma de jogar que Bielsa despertou em Leeds, o argentino foi claro: “O feito de Bielsa é excepcional. Isso pode ter a ver com aspectos sociais. Aqui, após cada partida busca-se quem é o culpado, o vilão: o treinador deste banco ou do outro banco. Aqui é muito difícil que alguém seja aceito sem resultados.”

Sampaoli tem razão, mas talvez a mudança cultural parta de treinadores valentes como ele, dispostos a não ter suas ousadias reprimidas pelo entorno. Neste ponto, o Fluminense de Fernando Diniz começa a experimentar algo que o Santos vem realizando: a construção do orgulho em torno da maneira de o time se expressar. O tricolor tem uma identidade, e ela é corajosa. A arquibancada adotou o time, recebeu os 4 a 1 sobre o Cruzeiro com um orgulho que prova que o sabor de ganhar não independe da forma, do estilo. Os gritos de pânico a cada saída de bola viraram aplausos quando os passes vencem a pressão adversária. Ainda que se argumente que beleza é subjetiva, em futebol há uma maneira de abordar o jogo claramente mais cativante. É muito mais comum encontrar quem se deixou conquistar pela busca do gol, pelo destemor, pelo envolvimento do rival, pela criatividade e pelo ataque.

É claro que resultados serão sempre necessários. Mas é notável perceber que a convicção da torcida tricolor de que deveria abraçar a ideia se reforçou na derrota para o Botafogo e no empate de quarta-feira com o mesmo Cruzeiro que viria a ser goleado no sábado. Nos dois jogos com os mineiros, o tricolor chutou mais de 40 vezes a gol contra um time de notória capacidade defensiva. Na goleada de sábado, um rival um pouco mais aberto permitiu ao Fluminense, que teve momentos de instabilidade, resolver mais rapidamente algumas jogadas, alternar cadência e velocidade. Marcos Paulo e o impressionante João Pedro acrescentaram profundidade. O time ganhou repertório.

Ao analisar este Fluminense, é obrigatório ter em mente que o elenco tem limitações. O parâmetro de sucesso não é a briga pelo título, algo que, hoje, soa irreal. Tampouco ter ideias arejadas assegura que Diniz será bem-sucedido ao implantá-las. Mas sua visão do futebol como uma construção de relações cumpriu uma etapa: a cumplicidade entre campo e arquibancada. É um passo”.