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Torcedora autista conquista tricolores nas redes por talento e amor à distância: “Sonho todos os dias em ver o Fluminense no Maracanã”

PV Vasconcellos

“Clarinha” mora em João Pessoa e chama atenção de torcedores e ídolos do clube no Instagram com sua arte em aquarela e análises sobre o Tricolor

É possível se apaixonar por um clube de futebol à distância? O sentimento envolvendo um torcedor e seu clube, que em alguns casos vem de berço, muitas vezes não tem lógica ou explicação racional – nem respeita CEP. Pode ser passado de pai para filho, ou nascer e florescer após uma conquista importante, como é o caso de Clara Alencar, de 20 anos. Torcedora do Fluminense e natalense de origem, saiu do Rio Grande do Norte para estudar em João Pessoa, na Paraíba, e tem feito sucesso nas redes sociais mostrando sua paixão pelo Tricolor, mesmo estando milhares de quilômetros longe do Rio de Janeiro.

— Meu amor pelo Fluminense começou bem perto do título da Libertadores, em 2023. A primeira coisa que me chamou atenção foi a torcida tricolor. Eu vi um vídeo da Luzia (menina que viralizou comemorando o gol de John Kennedy na final da Libertadores) muito emocionada no Maraca e pensei: “Eu quero descobrir e sentir tudo isso também!”. Depois fui estudar sobre a história e a tradição do clube, e já era. O Fluminense já fazia parte da minha vida. Sobre ser uma torcedora que mora longe do Rio, eu diria que é bem difícil… Para quem realmente ama, estuda e acompanha o clube diariamente, é complicado não poder viver o Fluminense de perto. Ainda mais aqui no Nordeste, onde eu moro, que ainda tem um certo preconceito se você não torce exclusivamente para um time da cidade em que você nasceu — disse a jovem ao NETFLU.

“Clarinha”, como é chamada carinhosamente por seus seguidores, resolveu deixar a vergonha e a insegurança de lado para aproveitar o melhor que a internet tem a oferecer: projeção. Em suas páginas no Instagram e no TikTok, analisa os jogos e as atuações do Fluminense, exibe sua arte em aquarela – homenageando ídolos históricos do clube – e também fala abertamente sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), e a importância da conscientização do tema. Abril, aliás, marca justamente o mês da conscientização do autismo, instituído pela ONU para dar visibilidade, combater o preconceito e promover a inclusão, como o Fluminense tem feito por meio de ações.

— Eu fui diagnosticada com TEA aos 18 anos, quando estava no 3° ano do Ensino Médio. Foi uma mistura de alívio, por saber que tudo que eu sentia e que afetava minha vida não era coisa da minha cabeça como diziam, e de medo do julgamento e capacitismo que eu sabia que iria enfrentar dali para frente. Esse transtorno afeta demais minha vida e a característica que eu mais tenho predominante são os problemas sensoriais. Então, barulho alto, roupas específicas, comidas específicas podem me causar crises, além da interação interpessoal que ainda tenho bastante dificuldade. É o que me torna uma pessoa mais calada na maioria das vezes. Outro problema que afeta diretamente minha rotina é a falta de previsibilidade. Nós autistas precisamos muito de previsibilidade, nada de surpresas ou avisos de última hora, isso também pode causar uma crise — explicou ela.

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Um post compartilhado por Clara Alencar (@alencar_clara.ffc)

Sucesso instantâneo

Em poucos meses de postagens no Instagram, Clarinha já atingiu quase 10 mil seguidores, sendo notada por ex-atletas e influencers tricolores por conta do seu talento para as artes e capacidade de comunicação. Suas pinturas já chamaram a atenção de Gum, Marcão e até do goleiro Fábio. Ao portal número um da torcida tricolor, a estudante de biologia, mas que tem o sonho de fazer jornalismo, comentou sobre como surgiu a ideia de criar a página e se esperava o sucesso tão repentino com suas postagens.

— A ideia de começar a falar sobre futebol e, principalmente, sobre Fluminense no meu perfil surgiu depois que eu percebi que tinha uma galera que gostava bastante de interagir comigo na DM e pelos stories sempre que eu falava minha opinião, ou postava algo da minha rotina relacionada ao Fluminense. Também posto conteúdos contando histórias do Fluminense, juntando arte e futebol, e graças a Deus estou crescendo e criando uma comunidade linda que me apoia sempre e interage demais. A arte é mais do que tudo terapêutico para mim. Como pessoa autista, preciso sempre buscar formas e estratégias de me autorregular e melhorar as crises, e a arte surgiu como uma forma de expressar o que eu não conseguia colocar em palavras e em interação. A arte é minha forma de expressão e demonstração de amor. Sempre faço desenhos e pinturas para pessoas queridas e quando comecei a pintar em 2020, durante a pandemia, foi minha válvula de escape para melhorar minha saúde mental, assim como o futebol — contou a influencer, complementando:

Foto: Reprodução Instagram

“A arte me trouxe conforto quando eu pensava em desistir de mim”

— Uma das coisas que sempre passava na minha cabeça era “Eu preciso ver meu Fluminense jogar”. O futebol e a arte me salvaram incontáveis vezes e ver minha arte do meu quadro “Aquarela Tricolor” ser reconhecida pelos jogadores me dá muito orgulho. Posso dizer que a arte me trouxe conforto quando eu pensava em desistir de mim… O reconhecimento de outros criadores e pessoas da comunidade do Fluminense também me deixa extremamente feliz de saber que estou fazendo um bom trabalho e representando meu Tricolor aqui no Nordeste. Gostaria muito de conseguir ter renda com meu trabalho na internet para conseguir ajudar minha mãe que tanto batalha diariamente — concluiu.

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Sonho de conhecer o Maracanã

Por conta da distância, Clarinha nunca teve a oportunidade de assistir a um jogo do Fluminense no Maracanã. Sequer conhece o Rio de Janeiro. A única vez em que esteve presente in loco em uma partida do Time de Guerreiros foi no ano passado, em 2025, quando o Tricolor visitou o Sport, em Recife, e ficou no empate em 2 a 2, no Estádio da Ilha do Retiro, pelo Brasileirão. A influencer viajou mais de 100 km da capital paraibana até Pernambuco e viveu a emoção de ver seus ídolos de perto pela primeira vez. O sonho maior, porém, é estar no Maracanã um dia.

Foto: Reprodução Instagram

— Foi no dia 01º de outubro de 2025. Assim que eu soube que o Fluminense estaria tão pertinho de mim, comecei a juntar dinheiro do trabalho de jovem aprendiz que eu tinha para ir ao jogo. Conheci a galera da “Guerreiros de Jampa”, que organizaram uma caravana até Recife e pude ir com eles. Não precisei ir sozinha. Foi uma viagem um pouco cansativa, pois estava chovendo muito no dia, então demorou mais de 2h para ir e outras 2h para voltar, mas foi o melhor dia da minha vida. Os sentimentos que eu tive naquele dia jamais vou conseguir colocar em palavras. Chorei um pouco, mas não de tristeza pelo resultado, e sim de felicidade por ter visto o Fluminense jogar. Fiz questão de levar um cartaz para o Fábio com uma pintura dele. Infelizmente não consegui a camisa dele — recordou Clarinha, ratificando seu desejo de um dia estar no Maracanã:

Foto: Reprodução Instagram

— Meu maior sonho é ver o Fluminense jogar no Rio. Eu imagino que deva ser uma energia totalmente diferente de assistir pela TV. Eu tento ao máximo trazer essa energia da torcida para perto, seja aprendendo todas as músicas de arquibancada – inclusive tenho um arquivo no meu aplicativo de música só com cantos da torcida (risos)-, seja indo me encontrar com a galera da “Guerreiros de Jampa” para assistir aos jogos juntos. Essas coisas me fazem sentir mais próxima do Maraca, mas eu sei que não chega nem perto da experiência real. Sonho todos os dias com a oportunidade de ir ver meu Fluzão no Maracanã e acho que sim, é possível conseguir isso através do meu trabalho. Luto diariamente para ter mais reconhecimento e oportunidades dentro do meio e vou lutar até o fim. Guerreiro não foge da luta e não pode correr!

Clarinha é a prova viva que o “time de todos”, como se intitula o Fluminense Football Club, está em todos os lugares e abraça o seu povo, não importa raça, credo, nacionalidade ou condição. Mais do que isso: é a prova que com coragem para correr atrás do que quer é possível alcançar seus objetivos.

“O céu é o limite”

— Essa é a parte boa de ser criadora de conteúdo: conseguir trazer essa identificação com outros torcedores de outros estados também. Como diria a música da arquibancada: “Tricolor em toda terra, amor igual não se viu”. E aos meus queridos colegas que estão no Transtorno do Espectro Autista, saibam que vocês são capazes de conquistar e fazer tudo o que quiserem. O céu é o limite e não precisam ter medo dos capacitistas. Não liguem para eles e sigam seu objetivo sem olhar pra trás. A vida pode te surpreender — encerrou.

Paulo Vitor Vasconcellos é tricolor fanático, escritor e jornalista formado em 2016 pela Universidade Veiga de Almeida. Trabalhou, de 2015 a 2018, como redator de esportes e, posteriormente, de cinema no portal VAVEL Brasil, cobrindo o Fluminense e a Comic Con Experience 2016 e 2017. Autor do livro Olhos de Lázzuli, ficção e fantasia voltada especialmente para o público infanto-juvenil.

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