Jorge Pagura comanda grupo dos médicos (Foto: Lucas Figueiredo - CBF)

Sem previsão a respeito de quando as competições relacionadas ao futebol poderão ser retomadas, a CBF criou um grupo médico de trabalho para estudar diversos cenários e formular um guia para clubes e seleções. Fazem parte deste “time” médicos das seleções do país.

A entidade não descarta fazer testes nos envolvidos antes do reinício dos jogos ao término da pandemia de coronavírus.

Jorge Pagura, presidente da Comissão Nacional de Médicos da CBF e membro do grupo de estudos da Conmebol, concedeu entrevista ao site “Globo Esporte” e falou das diretrizes a serem tomadas no futuro. Além dele, fazem parte deste grupo Rodrigo Lasmar (médico da seleção principal), Nemi Sabeh Junior, da seleção feminina, e Fernando Solera (coordenador da Comissão de Dopagem).

Nos próximos dias, médicos dos clubes profissionais e de base, que já enviaram perguntas, participarão de reuniões com o grupo.

Veja a íntegra da entrevista de Pagura ao portal:

O que vai tratar esse protocolo médico no futebol?

— É um conjunto de orientações de como deve se retomar depois de uma pandemia. Ninguém sabe quando vai voltar o futebol, mas estudamos para não pegar ninguém desprevenido, para ter uma mínima normatização. Vamos testar todo mundo? O Brasil precisa e não está testando. A maioria da população pode ter tido contato com a doença e não teve nenhuma reação ou apresentou sintoma muito leve. Estamos nos antecipando, se vai testar, como vai ser,como deve ser comportamento nos treinos, se vai isolar os grupos, se vai ter exame todos os dias. Tem tudo isso para avaliar e temos tempo para isso. Temos que estudar tudo, apresentar os protocolos, ouvir sugestões e formatar.

O senhor falou em testar todos, o que tem sido uma dificuldade no país. Como fazer?

— Se o governo vai absorver os testes para toda a população depois, o futebol também faz parte da população. Ideal seria teste para 20 milhões, 30 milhões de testes. Hoje só sabemos quem tem coronavírus por quem está internado ou teve alta. E os assintomáticos? Não podemos andar fora do governo. Estamos discutindo justamente isso. Abaixo do nível mínimo de segurança para todos envolvidos não podemos fazer futebol.

Mas a CBF pode avaliar comprar esses testes?

— É uma possibilidade. É muito importante para o país. Precisamos ver custo, tudo isso.Tudo está em discussão. O país não está fazendo teste, mas de repente entra em outra fase. Se o país fizer 20 milhões detestes, numa escala menor, o futebol faz 1 milhão de testes, dividido por 500, não dá muita coisa (de custo). Não queremos ser classe especial. Mas daqui a um mês pode ter mais testes. Ou só vai ter para quem vai para o hospital e aquele que tem alta? Vamos começar a estudar isso com critério.

— Todos estão fazendo todo esforço possível para nos anteciparmos. O Rogério(Caboclo) entende a parte médica muito bem. Não é Mandetta (Ministro da Saúde) e Bolsonaro (presidente).

É viável realizar testes num país com tantas realidades diferentes?

— Temos que pensar nisso, temos série A, B, C, D… Como a Conmebol que tem que pensar na realidade de Brasil, de Equador, Peru… Isso tudo que temos que discutir com infectologistas, virologistas, pneumologistas, médicos. Não é simples. Temos tempo para isso.

Dentro desses estudos, veem chance de retorno do futebol em maio?

— Não sabemos, seria leviano eu falar isso. Dependemos de tanta coisa. Do governo flexibilizar as orientações, mas são variáveis imensas. De repente os casos caem em São Paulo, mas estouram no Norte, no Nordeste. Como vão estar as linhas aéreas? É muita coisa para discutir. O que não pode acontecer é: “olha, em 15 dias vamos voltar” e todos irem correndo estudar o cenário. É como estudar o que fazer no calendário. “Se abrir em maio, se for junho…”, Temos que avaliar todos impactos e o que fazer quando liberar. Fazer os testes, os exames, seria espetacular.Mas cadê os testes? Hoje, não têm.

Na Alemanha, o Bayern voltou a treinar. Isso foi discutido já entre os clubes?

— Mas eu pergunto: o Bayern vai jogar com quem? Eles devem ter feito os testes lá. Não devem ter problemas lá, devem ter as medidas dele. A Espanha liberou parte de exercícios físicos, falando de como voltar, como fazer. Mas aqui temos casos em Manaus, em Brasília, na região Sul ainda não está tão ruim… Nosso campeonato é continental, é mais difícil que na Espanha.

Avaliam jogar de portões fechados no estádio?

— Ainda não chegamos nesta questão. Mas estádio não contamina ninguém, quem contamina são as pessoas. Por enquanto discutimos o futebol nas quatro linhas. Primeiro, como vai ser treino, depois os jogos. Vai que tem um jogo na quarta televisionado e na terça um testa positivo, tem contato com outros 10. Como vai ser? Estamos analisando todos aspectos. Vamos preparar um, dois, três cenários. Se vai ter público, se não vai ter, como proteger auxiliares, médicos, imprensa. Tudo pela proteção do atleta de quem participa do evento.

O futebol de seleções, por envolver jogadores de todos mundos e travessia de fronteiras, vive um cenário ainda mais complicado?

— Sem dúvida. Você convoca o jogador da Espanha, outro da Rússia, mas esse já vem com teste pronto. E aí, vai chegar e tem que ficar de quarentena? Cenário é complicado.Todos estão fazendo todo esforço possível para nos anteciparmos. O Rogério(Caboclo) entende a parte médica muito bem. Não é Mandetta (Ministro da Saúde) e Bolsonaro (presidente). Entendemos a angústia dele em relação ao campeonato. Ele entende que temos que trabalhar com toda a segurança. Isso é muito bom.