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Atualizada às 00h09, do dia 08/11/2016

Ano de eleição e turbulências no Fluminense. E-mails, entrevistas, áudios e postagens antigas de pessoas relacionadas à política ou gestão do clube têm reaparecido. Nesse contexto, o portal NETFLU conseguiu acesso, de maneira exclusiva, a dois contratos confidenciais, assinados pelo presidente Peter Siemsen, onde a gerente jurídica Roberta Fernandes, que também acumula a função de diretora geral, teve seu vínculo estendido em março de 2015. O detalhe é que os novos acordos vão até fevereiro de 2019. No contrato que tange a área jurídica, a multa chega é de cerca de R$375 mil. No outro, apesar de previsão de multa, o item 10 prevê que as partes podem rescindir sem quaisquer ônus mediantes simples notificação, desde que haja aviso prévio de 30 dias. A ação foi uma iniciativa para proteger a contratada, caso o novo presidente do clube decida não seguir mais com os seus serviços.

Esposa de Gustavo Piva, sócio de Peter num dos escritórios do mandatário, Roberta, porém, é defendida com firmeza pelo homem forte das Laranjeiras. Despreocupado, Siemsen entende que o Tricolor foi palco de uma grande história de amor e não de um conto repleto de conflitos éticos. Ele também negou a informação de que havia apadrinhado o casamento de ambos.

– Você mandou pra gente um relato e, dentro dele, houve uma acusação que eu seria, inclusive, padrinho de casamento. Tudo isso que foi denunciado aí, que seria errado porque o marido dela trabalha no meu escritório, é sócio do meu escritório e que eu seria padrinho de casamento deles. Isso seria algo negativo na relação e que criaria algum tipo de suspeita. Primeiro ponto importante: como o escritório não presta serviços ao Fluminense, nunca prestou, pelo contrário, o escritório vem ajudando o Fluminense desde 1998, quando comecei a ajudar o clube na área jurídica e nunca cobrou nada. O escritório doou todas as horas de trabalho, inclusive na final de 2005, com o problema da Unimed contra aquela academia de ginástica, a recuperação do direito do hino, numa tese extremamente avançada, depois de pagar por alguns anos os royalties à família herdeira do autor. Na época, foi até o Gustavo, que não era nem o marido dela, nem a conhecia, tocou essa ação de forma brilhante e o Fluminense teve o direito de usar o seu hino sem pagar nada a ninguém. Entre outras recuperações, como  o domínio “fluminense.com”, “fluminense.com.br”, lado direito do Vasco e com amplo sucesso, tendo os custos pagos diretamente do meu bolso, dentro do escritório. O escritório não presta serviços remunerados ao Fluminense, não tem relação comercial com o clube. Portanto, não poderia ter nenhum tipo de conflito ético essa relação. Segundo, é engraçado dizer que fui padrinho, se nem no casamento na igreja eu fui. Eu fui direto para a festa. Se eu não compareci à igreja, não tem como eu ser padrinho. Não existe ainda padrinho por procuração. A Roberta conheceu o marido dela não tem muito tempo, casou no ano passado (outubro) e ela já está há 11 anos no Fluminense. É exatamente ao contrário do conflito ético, o Fluminense gerou uma linda história de amor, onde uma pessoa, que é extremamente competente, que começou comigo como estagiário, é torcedor do Fluminense, me chamou um dia para contar da relação com ela. Eu nem imaginava o que era. E ele disse: “estou namorando a Roberta”. Eu caí pra trás. Acho que o Fluminense proporcionou uma história muito bonita – explicou.

Contrato de prestação de serviços de consultoria e gestão do departamento jurídico do Flu, com o carimbo de confidencial
Contrato de prestação de serviços de consultoria e gestão do departamento jurídico do Flu, com o carimbo de confidencial, similar ao contrato de Diretora Geral, que tem como diferença principal a remuneração

A história de Roberta Fernandes no Fluminense, como frisou Peter, é antiga. Desde 2005 no clube atuando na esfera jurídica, ela foi indicada para ser a número 1 da gestão por Jackson Vasconcelos, após deixar a direção geral em 2014. Tecendo grandes elogios para a profissional, o ex-dirigente, em conversa rápida com o NETFLU, destacou a importância da mesma na condução do clube. Muito satisfeito com os serviços prestados, Peter delegou à advogada, além da gerência jurídica, a função de CEO.

A primeira responsabilidade com uma remuneração de R$ 30 mil mensais e a segunda, num contrato separado, com remuneração de R$ 10 mil por mês. Ambos os contratos foram avalizados com o selo do departamento jurídico em todas as páginas. Os valores, segundo o presidente, estão abaixo daquilo que é pago no mercado. Já os termos contratuais, conforme as palavras do mandatário, são similares aos que tinham outros funcionários, como o ex-advogado do Tricolor e candidato pela chapa “O Fluminense me domina”, Mário Bittencourt. Entretanto, o ex-vice de futebol possuía contrato até o final da gestão atual, apesar de tê-lo entregado no mês passado, quando lançou sua candidatura à presidência.

Roberta Fernandes e Gustavo Piva, sócio de Peter, já tinham um relacionamento, apesar de ainda não estarem casados, antes da renovação contratual até fevereiro de 2019 (Foto: Reprodução Instagram)
Roberta Fernandes e Gustavo Piva, sócio de Peter, já tinham um relacionamento, apesar de ainda não estarem casados, antes da renovação contratual até fevereiro de 2019 (Foto: Reprodução Instagram)

– A Roberta já trabalha prestando serviços ao Fluminense há 11 anos. Ela começou anterior à minha gestão. O modelo adotado para a relação contratual da prestação de serviços dela é um modelo que já veio da outra gestão. É um modelo que, até pela dedicação, perfil e etc, exige que haja uma proteção em relação a uma possível rescisão, ainda mais por todo o tempo que ela vem prestando esse serviço e pelo fato dela acumular duas funções extremamente importantes no Fluminense. Ela é uma pessoa espetacular, de altíssima confiança, seríssima. Hoje acumula a função de gerente do jurídico e diretora geral do clube e é uma pessoa que o Fluminense tem que agradecer muito todos esses anos de dedicação. Até porque a própria remuneração que ela tem está muito abaixo do mercado, quando a gente compara com outros clubes ou cenários corporativos. Você ter um contrato por tempo determinado, uma rescisão com uma compensação importante, para mim é fundamental até para o Fluminense poder continuar trabalhando com esse modelo. Esse modelo, aliás, o Fluminense adotou com sucesso nos últimos anos e se aproxima muito das discussões que estão tendo hoje no Congresso Nacional para a modificação das leis trabalhistas brasileiras, que hoje são atrasadas, extremamente custosas e difíceis de serem utilizadas em situações como a de um caso de um clube de futebol. É um modelo que vinha sendo adotado com sucesso e o Fluminense tem tido bastante benefício com relação a isso. Quero lembrar também que esse tipo de contrato não é diferente de outros contratos. A gente tem aí o próprio exemplo do ex-vice de futebol (Mário Bittencourt), que prestou serviços na área jurídica durante muitos anos, e tinha um contrato que seguia exatamente a mesma linha de multa, tempo, renovação automática e etc, funcionando desta maneira, até então. Inclusive, em algum momento, ele teve um contrato adicional de gestão de diretor do departamento jurídico do Fluminense. Volto a dizer, é um modelo onde o Fluminense teve grandes benefícios nesse período e foi muito importante para o clube superar aquela época em que o clube tinha uma crise financeira contínua atrás da outra, não tinha um planejamento, não cumpria com os compromissos e hoje o Fluminense é completamente diferente e esse modelo ajudou muito o clube a se reorganizar – disse.

Caso seja mandada embora pelo novo presidente, Roberta terá direito ao recebimento de rescisão no valor de 50% a tudo o que ela teria de receber do período do desligamento até fevereiro de 2019. O mesmo vale para o contrato de diretora geral, onde tem a remuneração de R$10 mil mensais
Caso seja mandada embora pelo novo presidente, Roberta terá direito ao recebimento de rescisão no valor de 50% a tudo o que ela teria de receber do período do desligamento até fevereiro de 2019. Esse valor tem de ser pago em 10 dias, de maneira integral, para evitar multas. O mesmo não vale para o contrato de diretora geral, onde tem a remuneração de R$10 mil mensais

Questionado se outro funcionário do clube, sem ser do departamento de futebol, sobretudo jogador, possuía contrato com extensão semelhante ao de Roberta Fernandes, extrapolando sua gestão, Peter preferiu não fazer separação entre os setores do clube.

– Sem ser futebol é difícil discutir, porque na verdade o papel da Roberta é muito envolvido com o futebol. Sem ser jogador, você tem comissão técnica que tem esse tipo de contrato, tem profissionais de futebol, não só aqui, mas em vários lugares. Até porque a pessoa tem que ter uma garantia pelo fato do clube ser político, é um modelo atrasadíssimo. Brasil e Argentina são os únicos mercados modernos do mundo, de relevância no futebol, que não adotaram modelo empresa para o futebol. Então, dentro do modelo político, existe enorme insegurança para as pessoas trabalharem, prestarem serviços e profissionais poderem se dedicar aos clubes. Esse modelo, o Fluminense passou a utilizar para funções que tinham, sim, participação no futebol, mas que tinham uma abrangência maior no clube. Sem dúvida nenhuma, todo o papel da Roberta e de vários profissionais aqui do clube são, na grande parte do tempo, dedicado ao futebol. É um trabalho envolvente, mas é um trabalho muito duro – grifou o mandatário.

Vice-presidente jurídico do Fluminense na época da renovação contratual de Roberta Fernandes, Cacá Cardoso, da chapa “Fluminense Unido e Forte” disse que nunca teve acesso a tal acordo. Informado sobre o trato, ele esclarece que o vínculo foi feito diretamente entre o presidente e a diretora, sem sua apreciação.

– Não participei e nem tomei conhecimento do contrato. Se você tivesse me perguntado em março de 2015 (quando o contrato foi renovado), a minha resposta seria a mesma. Esses documentos não foram submetidos à minha apreciação. Não fui chamado em momento algum. Foi direto o presidente com a Roberta, acredito – falou.

Diferentemente do que Cacá Cardoso disse, o presidente do Fluminense, Peter Siemsen, o citou, indiretamente, ao comentar que o mesmo sempre fora de acordo com a condução dos contratos do clube. Além disso, Peter justificou que deu sequência ao que já havia sido feito na gestão de Roberto Horcades, que presidiu o Tricolor até 2010.

– Na verdade é um modelo que a gente usa dentro desse perfil, para que a pessoa tenha segurança no seu trabalho de que, em caso da política agir, porque muitas vezes a política prejudica o profissionalismo e a continuidade. O clube vem numa crescente nos últimos anos. Eu herdei a Roberta de outra gestão (época de Horcades) com um modelo contratual semelhante ao que a gente tem hoje, renovamos e eu aditei a questão dela acumular uma função até de mais importância. É um modelo que, ao contrário do amadorismo, prisma pelo profissionalismo, já que é benéfico para o clube, dá alguma estabilidade ao prestador de serviços e procura evitar essa influência política da pessoa entrar e destruir um trabalho. Na verdade, isso é muito importante, senão profissionais como ela e outros profissionais de qualidade, não teriam continuidade em clube nenhum. Vejo como um benefício, não como prejuízo. Até porque temos candidatos que passaram por esse processo aqui dentro durante anos e anos. Temos candidatos que foram vice-presidentes cinco anos e meio, conhecem a estrutura e funcionamento do clube e nunca se manifestaram contra esse trabalho – concluiu.

Contrato de prestação de serviços de gerente jurídica (à esquerda) assinado por Peter Siemsen, Roberta Fernanda e outras duas testemunhas; à direita, o contrato de diretora geral, também assinado no mesmo dia pelas mesmas pessoas
Contrato de prestação de serviços de gerente jurídica (à esquerda) assinado por Peter Siemsen, Roberta Fernanda e outras duas testemunhas; à direita, o contrato de diretora geral, também assinado no mesmo dia pelas mesmas pessoas

Diretora geral do Fluminense, Roberta Fernandes confirmou à reportagem do NETFLU que o contrato era similar ao da gestão passada, mostrando detalhes do mesmo. Por ser confidencial, não houve autorização para registro fotográfico. Preocupada, ela comentou que nunca obteve nenhum tipo de vantagem ilícita.

– O contrato do Horcades, até queria te mostrar uma coisa nele, para você ver essa questão da multa, que você (repórter do NETFLU) colocou, que é um contrato que foi assinado em 2010. Só pra você entender que não foi uma coisa para me dar um benefício, porque eu sou casada com quem quer que seja. Muito pelo contrário, eu tinha as mesmas garantias, o mesmo tempo de multa eu receberia, valor. A única diferença mesmo era o valor por conta de uma correção que o contrato sofreu de lá pra cá. Eu não tive nenhum tipo de reajuste na gestão do Peter, nenhum benefício diferente por causa disso. Quando eu assumi o cargo de maior responsabilidade e ele na época, inclusive, estava fazendo o reajuste de outras pessoas também, me disse que daria um reajuste a partir de março (de 2015) para esta função. Aí, eu pedi que houvesse uma separação das duas coisas, porque uma coisa, no meu entendimento, é um trabalho consolidado num departamento durante 11 anos e outra coisa é um cargo que é extremamente disputado, porque qualquer pessoa que vai entrar vai querer colocar alguém de confiança. Estou muito tranquila – declarou.

No ato do acordo contratual, Roberta Fernandes assinou o como sócia gerente da “Fernandes & Leal Advogados Associados”. Seu sócio é Bernardo Leal, amigo e funcionário do Fluminense também na área jurídica, ou seja, um de seus subordinados no departamento. Segundo ela, a sociedade existe porque o antigo sócio era o seu ex-marido. Precisando do nome de um advogado de confiança para poder assinar o vínculo, ela recorreu a Bernardo, garantindo que o mesmo não teve nenhuma vantagem ou compensação.

– O Bernardo é advogado contratado pelo clube. Como eu tinha um modelo de prestação de serviços que preciso manter e eu me separei e o meu sócio era o meu ex-marido, eu precisava substituir, ter um nome de outro advogado. Você não pode fazer uma sociedade com um advogado só. Então, eu pedi, como o meu amigo pessoal também, que ele figurasse no contrato, só para que eu pudesse ter um outro advogado para manter o contrato, já que não iria manter o nome do meu ex-marido. Bernardo é funcionário do clube e não tem absolutamente nenhuma participação no meu contrato. A matéria só piora, quando você vê esse nível de desgaste, de informação. Ele é funcionário do Fluminense, obviamente que trabalha para mim, assim como outras pessoas, já que sou a responsável pelo departamento jurídico. Só que, por uma questão de que eu precisava substituir o nome do advogado que figurava no contrato, eu tive que pedir o favor para alguém que eu confiasse – disse.

De acordo com o artigo 36, inciso XI, do estatuto do Fluminense, compete ao Conselho Fiscal dar parecer sobre qualquer operação financeira, assinatura de contrato ou antecipação de receita cujos vencimentos ultrapassem a legislatura vigente. Em virtude disto, a reportagem do site número 1 da torcida tricolor procurou o candidato à presidência pela Flusócio, Pedro Abad, que é mandatário do Conselho Fiscal do clube. Indagado à respeito do contrato, Abad respondeu:

– Tenho conhecimento do contrato e não tem nada de lesivo ao clube. Eu, como presidente do conselho fiscal, analisei o contrato e a confidencialidade me impede de tecer mais considerações.

Também membro do Conselho Fiscal, o apoiador da campanha de Celso Barros, Humberto Menezes, disse que o contrato não passou por suas mãos. Além dele, o NETFLU buscou respostas junto ao tesoureiro do clube, ligado ao grupo político Flusócio, Claudio Pires Barçante. Responsável pela liberação dos pagamentos do Fluminense, ele preferiu não comentar. A reportagem insistiu, questionando se ele tinha tido acesso ao mesmo e o tesoureiro repetiu as palavras, afirmando que não comentaria.