“Em casa que falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão”: eis o dito popular que minha amada avó Eulália, torcedora do América, adorava repetir. Nem tudo o que é popular é necessariamente sábio e a voz do povo nem sempre é a voz de Deus, mesmo porque a voz do povo muda ao sabor das notícias, ao contrário do que se espera da voz de Deus, infinitamente mais serena e convicta. Basta ver o que aconteceu no imbróglio envolvendo Fred. Em meio a uma sequência de partidas sem marcar (nada que não aconteça com os maiores atacantes do planeta), o capitão se desentendeu com Levir Culpi, ameaçou sair e as pesquisas logo mostraram que a torcida teria ficado ao lado do técnico recém-chegado. Mas bastou que viessem a reconciliação e uma coletiva de imprensa cheia de declarações de amor ao clube (e até uma generosa menção à carta que publiquei aqui na semana passada) para que a grande maioria dos torcedores, em nova enquete, garantisse que todos ganhavam com a permanência do camisa 9.

A oscilante voz do povo pode, portanto, não ser a voz de Deus. Mas, ao menos em relação ao ditado popular do parágrafo anterior, ela acertou em cheio. E fazendo um contraponto com a frase da minha avó, atrevo-me a criar uma outra, perfeitamente aplicável ao universo do futebol: em casa que tem taça, ninguém briga e todo mundo se abraça.

Foi exatamente assim que senti todo o clube quando o árbitro apitou o final da partida contra o Atlético Paranaense, na última quarta, em Juiz de Fora. Pouco importa que o time não tenha feito uma exibição de gala, pouco importa que o discurso político tenha tomado conta do ambiente do clube (até candidato com capacete de obra o pessoal viu dando voltas pelo estádio), pouco importa que ainda haja muito por fazer para termos um time em condições de disputar o título brasileiro ou ao menos uma vaga na Libertadores, pouco importa que ainda haja muitos obstáculos no caminho que conduzirá o Fluminense à grandeza de seus melhores dias. O importante é que nós, torcedores, sabemos que todo título é uma bênção – ainda mais um título com dimensões nacionais e recheado de significado.

Sempre elogiei a coragem com a qual Fluminense e Flamengo se lançaram na luta contra a abominável Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro e seus dirigentes do Século 19. Sei que tivemos momentos de titubeação, nas diversas idas e vindas da estruturação do torneio. Sei também que escolhemos o palco errado para a final – e os fatos comprovaram a tese que defendi aqui neste espaço, de que uma grande final, uma final de importância histórica para o futuro do futebol brasileiro, pedia um estádio moderno, à altura do evento, e não cenas lamentáveis como brigas de torcidas, filas abomináveis para a entrada do público, um drone despencando no gramado e gente sentada num morrinho de grama. Faltou só o clássico cachorro vira-lata correndo pelas laterais do campo para o panorama anos 60 ficar completo. Talvez por conta dessa escolha errada de palco tenhamos ficado fora não apenas da TV aberta como também do canal principal do Sportv. O curioso é que disseram que foi exatamente a TV que não nos permitiu jogar no feriado, ao que pergunto: qual poderoso canal fez tal proibição, o Sportv2? Mas, respeitando o título da coluna, eu queria agora deixar de lado os erros de execução para dar os parabéns ao presidente Peter Siemsen por ter peitado a Ferj e ido à luta ao lado de grandes clubes que procuram se libertar de uma estrutura arcaica do futebol nacional, cujo resultado prático foi imortalizado em um placar tão amargo quanto inesquecível: 7 x 1.

“Se quereis saber o futuro do Fluminense, olhai para o seu passado”. A frase de Nelson Rodrigues – cronista genial que sabia que a voz do povo nem sempre é a voz de Deus e odiava o óbvio – resume o que foi a nossa conquista da última quarta-feira. O clube que fez parte da gênese do futebol brasileiro, que foi berço da Seleção Brasileira, que ergueu o primeiro estádio do continente, que trouxe a primeira medalha olímpica para o país, que foi o primeiro clube de futebol do estado e que ganhou o primeiro campeonato de futebol nele disputado, entre outras conquistas que primam pelo ineditismo, foi o protagonista perfeito para a primeira final da Primeira Liga. A Liga, que pode ser o embrião de uma associação nacional e independente de grandes clubes, é o tipo de esforço pioneiro que combina totalmente com o clube que sempre liderou as iniciativas mais transformadoras do futebol do país. Foi lindo ver a tradição abraçando e iluminando a modernidade. Foi extraordinário ver a molecada de Xerém celebrando a conquista ao lado de veteranos de outras jornadas épicas, como Gum, bicampeão brasileiro, e Cícero, campeão da Copa do Brasil. Apenas pelo prazer de citar Nelson, mais uma vez, arremato: “Não se dá um passo em Álvaro Chaves sem tropeçar em uma glória”.

Com a taça da Primeira Liga já depositada em nosso relicário de glórias, precisamos providenciar mais um título estadual. Já sambamos na cara da Ferj com a conquista que o gol moleque de Marcos Junior nos proporcionou. Agora imaginem se ainda levamos o campeonato “deles” para a nossa sede. Seria simplesmente espetacular. Temos mais elenco e padrão de jogo do que os rivais e, consequentemente, tudo para ficar com o título. Mas precisamos estar atentos, pois, não se iludam, muitas cascas de banana ainda serão espalhadas pelo caminho. A mídia enviesada está sempre procurando uma crise – e não pensem que os algozes de sempre desistirão agora. Podem anotar: crescerá a cada dia o volume de matérias sobre brigas do Fred com os garotos de Xerém. Da mesma forma, pipocarão aqui e ali comentários polêmicos sobre como os meninos ficaram mascarados. E não descartem novos rounds de boatos de discussões entre Levir e Fred.

Elenco, comissão técnica, dirigentes e torcedores precisam estar atentos a isso. Nada de dar lenha para os que querem ver nosso clube arder em uma fogueira. O discurso deve ser de união, sempre, a cada jogo, a cada declaração. Fred tem que se deixar ver conversando com Levir e completar seu esforço de esfriar a cabeça diante do que considerou uma injustiça. Página virada é página virada, simples assim. Nada de cara emburrada porque o gol não sai, nada de reclamar de eventuais substituições. Por outro lado, Levir precisa entender que grande parte dos gols de Fred acontece na reta final das partidas, quando os adversários começam a relaxar a marcação. Vale a pena deixá-lo até o fim, ainda mais contra seu freguês Botafogo, ainda mais como um gesto de reaproximação. Já os meninos precisam ter equilíbrio e entender que, se é verdade que não devem passar todas as bolas para artilheiro, é estupidez achar que não devem passar nenhuma. Mesmo o ótimo Scarpa tem exagerado nos chutes, que nem sempre são a melhor opção. Equilíbrio sempre foi e sempre será o melhor caminho para um grande time. Não podemos perder isso de vista.

Se soubermos evitar as muitas armadilhas do caminho, temos tudo para fazer de 2016 um ano para encher nossa torcida de alegria – e nossos inimigos de inveja. Viveremos para ver. E celebrar. Que venha o Botafogo!