(Foto: Marcelo Gonçalves - FFC)

*Coluna publicada em 17 de abril de 2023 e recebeu adaptações para este projeto

E agora você deve estar se perguntando: Qual a relação de um jogo do Campeonato Carioca com a Conmebol Libertadores?


Nesse caso, eu me atrevo a dizer que a goleada sobre o Flamengo foi um validador do trabalho. Um título importante para o Fluminense e para o Fernando Diniz pessoalmente pela forma como ocorreu. E a forma importa muito.

Na história, é muito difícil analisar os fenômenos no momento em que eles estão ocorrendo. A gente dificilmente tem o distanciamento necessário para perceber as grandes revoluções.

E há uma ocorrendo bem debaixo dos nossos olhos que mexe com a estrutura do futebol brasileiro e com a forma como ele vem sendo concebido, muito influenciado pelo sucesso do jogo de posição. Fernando Diniz é o responsável por isso. Pelo nosso Renascimento.

Não mais o espaço como referência, como o centro do universo de um jogo de futebol. Agora, é ao redor da bola que tudo orbita. Ela, a bola, passa a ser a grande referência, o centro do todo.

Há, também, nesse processo de Renascimento, a humanização do jogador de futebol como pilar fundamental para a prática do modelo que se quer adotar.

Não foi fácil para Fernando Diniz chegar até aqui. Rotulado de extravagante, de descompromissado com o resultado. Em vez de perceber o trabalho que vinha sendo feito, os processos, a metodologia, o que o campo mostrava, as pessoas preferiam focar única e exclusivamente em resultados, como se apenas eles pudessem ser analisados, como se um jogo de futebol devesse ser analisado do placar para trás.

Fernando sempre foi competitivo ao extremo. Só que nunca abandonou suas convicções. A forma como ele entende que está mais perto de ganhar os jogos, é a que ele pratica. E não é fácil bancar isso sem resultado.

O título de campeão carioca em cima de quem foi e da forma como foi, traz a paz e a tranquilidade necessárias para o seguimento do trabalho. Valida o processo.

Também aqui esse Renascimento atua. Porque ele muda o foco da análise. Cada vez mais, a gente está discutindo aspectos do jogo, a gente está conseguindo perceber que apenas resultados não definem quem é bom e quem é ruim. Você pode pensar que um título carioca não justifica o que foi escrito até aqui, mas não foi só “um Carioca”.

O que esse Fluminense fez foi simplesmente, pegar um século de rivalidade, um sem número de decisões difíceis, equilibradas, decididas num detalhe e levar o jogo de um jeito (sempre tendo a bola como principal referência), que o seu adversário, um time multicampeão de tudo nos últimos anos, parecia um time de outra divisão. O Maracanã assistiu a uma imposição jamais vista e que talvez não volte a se repetir numa final de campeonato.

Tendo em vista a diferença de orçamento, reflexo de um modelo pernicioso adotado pós-implosão do Clube dos 13, esse jogo quebrou todos os paradigmas possíveis no mundo do futebol. A forma, o conteúdo, o que se vê no campo, as sensações que produz, esse Fluminense entraria para a história.

Não havia, nesta data, ainda, a menor ideia sobre onde esse time poderia chegar nas competições maiores. Mas havia a certeza do que o torcedor viu e viveu da chegada do Fernando em 2022 até essa taça. E não era pouca coisa.

E daqui a 30 anos a gente vai contar pros filhos, netos, bisnetos tudo o que a gente está vivendo com um suspiro de felicidade:

– Ah, aquele Flu do Diniz…

Com quarenta anos de arquibancada, já vi o Fluminense levantar taça, perder taça, ganhar jogos, perder jogos, já me emocionei, já tive raiva, mas eu nunca vi nada parecido como esse Fluminense.

O Fluminense, esse Fluminense, é maior time de todos os tempos. Porque é revolucionário, quebra paradigmas e traz de volta toda a natureza do futebol brasileiro, tão machucada por tanta gente ruim nas últimas décadas.

E nem era necessário título para atestar isso. Era só saber sentir, desfrutar, deixar-se apaixonar. Mas ele veio e veio de forma linda.

A cada jogo, era a história sendo feita. E a Libertadores estava só começando…