Roger viu o Flu fazer seu melhor jogo em 2021 e teve papel fundamental nisso (Foto: Lucas Merçon/FFC)

A gente pode separar o jogo da última terça-feira em dois momentos.

O Fluminense que fez o 2 a 0 é um time que estreou na Libertadores. A pior média de posse de bola entre todos os participantes deu lugar a um time que tomou as rédeas da partida e controlou jogo.

E um segundo momento, já com a ótima vantagem, em que o fluminense recuou suas linhas e passou a controlar espaços, como gosta de explicar Roger Machado.

Porém, diferente de outras vezes, ontem ocorreu realmente um controle efetivo dos espaços uma vez que o River depois do 2 a 0, mudou jogadores, sistema e não conseguiu nada contra o, dessa vez, bem postado Fluminense.

Reparem que foi no momento em que mais atacou, pressionou e agrediu que o Fluminense sofreu as duas melhores chances de gol do seu adversário.

Um chute sem ângulo que o Marcos salva e se recupera com uma defesa milagrosa e uma bola na trave do Carrascal que recebe na frente, corta o nino pra dentro e fuzila.

Eram riscos necessários para um time que precisava de gols, precisava vencer.

Mas é óbvio que uma vitória como a de ontem não é fruto apenas da necessidade de vitória e de um time que optou por agredir seu adversário.

Há claramente ali a participação do treinador e de jogadores que cumpriram o que lhes foi pedido.

Roger teve ontem sua melhor noite sob o comando do Fluminense. E essa grande noite começa com um diagnóstico muito preciso feito por ele ao fim do Fla-Flu de sábado.

A necessidade de preenchimento do meio. Com o diagnóstico correto, faltava acertar no remédio. Nesse momento a torcida pedia todo o tipo de mudança. Três zagueiros, um volante na frente da área, dois meias… Todo o tipo de esquema tático. Num primeiro momento Roger trocou os laterais.

Desfez o absurdo de tirar Egídio pra colocar o Barcelos e aqui estamos falando de outro nível de jogador. Nem vou me alongar porque não há comparação possível. Egídio é muito acima em todos os quesitos.

E optou por Samuel Xavier. O que se revelou um outro acerto por conta de um problema que Calegari vem apresentando que é seu jogo com a bola. Se Calegari é bom marcador e ocupa bem a linha defensiva, Samuel deu outro padrão ofensivo ao time com uma saída mais qualificada e um apoio bem mais efetivo. Num time que carecia de mais ofensividade foi um acerto.

Também trocou os pontas dando-lhes novos posicionamentos de espaço. Um pouco mais pra dentro em momentos com a bola pra abrir corredores pros laterais. Também ganhou mais dinâmica, mais força (principalmente com Caio) na pressão alta, nos duelos.

Se a gente pegar, e eu postei no meu twitter (@_dedemoreira) os mapas de calor de Kayky e Luiz Henrique no Fla-Flu e comparar com Caio Paulista e Gabriel fica muito fácil perceber isso.

O primeiro gol mostra exatamente isso. Caio rouba uma bola num momento de marcação com bloco muito baixo. Em vez de correr pro lado do campo, corre por dentro. Samuel carrega, espera (noção de tempo) o Fred sair do impedimento, dá o passe e Frederico Chaves milimetricamente faz o que nenhum lateral do elenco faria. Deixa Caio, que atravessou o campo inteiro em velocidade sem a bola, na cara do gol.

Entretanto o maior acerto de Roger ontem foi o posicionamento do Nenê.

Quando anunciada a escalação, a torcida ficou enfurecida com a não mudança. Nenê jogando na frente com o Fred, pontas muito atrás, marcação baixa… estava complicado.

Mas ontem não foi isso. Roger mudou sem mudar. Trouxe Nenê, sem a bola, pra um 4-1-4-1 com Fred à frente e uma linha atrás com Caio, Nenê, Yago e Gabriel. Martinelli jogava atrás dessa linha fazendo a “cola” entre a duas linhas de 4. Era muito do que a torcida pediu, mas sem mudar peças e isso funcionou perfeitamente, tanto no modelo que começou o jogo, quando no modelo pós 2 a 0.

Contou obviamente com um entendimento do jogador que ontem fez uma das suas melhores partidas táticas desde que chegou ao Fluminense e ainda foi premiado com um gol.

Gol que, de novo, tem participação do Fred, que recua, dessa vez como um meia, segura a bola, dá o tempo necessário pra Nenê estar bem posicionado e acerta um primor de passe. Em seis jogos, Fred conta com 4 gols e 2 assistências. 100% de Percentual de Poder de Decisão.

O Fluminense foi tão assertivo mesmo quando optou por não ter a posse que ainda acertou um afalta na bochecha do rede com Nenê, acertou o travessão com Yago (um monstro no jogo), numa troca linda de passe entre Samuel e Caio, a bola cai no Nenê que chuta pra defesa do Armani e ainda deu tempo pro Yago ser premiado com um golaço fazendo mais uma transição já no fim do jogo.

Gol que novamente sai com um passe do centroavante, dessa vez Abel, funcionando como um meia. Isso é posicionamento e preenchimento inteligente de espaços.

Amigos, no futebol tudo cabe. A gente perde muito tempo discutindo esquema, mas futebol se trata basicamente de ocupar espaços (que espaço ocupar? Como ocupar? O que fazer no espaço ocupado?), isso é modelo de jogo.

E quando ele é coerente com a situação, com o que o jogo pede, ele funciona. E pode funcionar no 3-5-2, 4-4-2, 4-2-3-1, 4-3-3 e pode não funcionar também com tudo isso aí.

E é importante também que seja mutável, adaptativo, fluido. A mudança é o melhor dos esquemas. O que serve hoje, não servia ontem e não servirá amanhã.

Tabelinha

– Yago e Martinelli. Hoje estão sem substitutos (posição e função) no elenco do Fluminense.

– River veio numa condição muito difícil com jogadores pós-Covid. Isso fez diferença no jogo, é importante frisar.

– O futebol não é feito de taças, mas de sensações. Pra quem só pensa em taça o futebol é muito cruel. Ontem foi um dia espetacular pro torcedor e quanto mais o Fluminense conseguir proporcionar isso, maior será o engajamento e maiores serão as chances de conquistas importantes.

– Ainda sobre sensações. Vi o jogo com o Gustavo Albuquerque (nosso querido Flupress) ontem. Ainda 0 x 0, Gustavo olhou pra mim e disse: “O Fluminense tá jogando pra caralho hoje” . E estava.

– Por fim. O Recanto é pé-quente demais. Valeu, Pedrão!