Foto: Lucas Merçon - FFC

Em 2019 eu faço 5 anos de Flupress aqui com o Gustavo.

É bem provável que há alguns anos, num momento como esse, vocês lessem um post meu pedindo cabeça de treinador, dirigente, jogador e se vocês estiverem esperando isso aqui de mim, podem parar a leitura porque não vai acontecer.

Não vai acontecer por dois motivos:

O primeiro é a defesa da ideia. A implementação de um modelo deve ser institucional, não é papel do treinador da vez. Isso se chama identidade.

O modelo proposto, que busca o ataque, o protagonismo, me agrada e isso independe do treinador. É como eu vejo futebol. É como me agrada ver futebol.

Pode ser que o Mário ou o Celso tenhas visões distintas. Há pessoas que preferem os sistemas defensivos intransponíveis, as transições e bolas longas, o erro alheio pra vencer ou a inspiração do jogador diferenciado.

Na história do futebol há exemplos vencedores de várias formas de jogar.

Mas quando o Fluminense opta pelo Fernando Diniz no início do ano, quando a torcida (boa parte dela) compra a ideia, quando uma nova gestão inicia sua caminhada e mantém o treinador, me parece claro que o modelo atual é o caminho escolhido.

E esse caminho, e aqui vai o segundo motivo, é longo. Em todos os meus posts foi avisado que não seria rápido, não seria da noite pro dia, ainda mais levando em conta o cenário tanto do Fluminense, quanto do futebol brasileiro.

No caso do futebol brasileiro um calendário alucinante com jogos um em cima do outro que diminui a quantidade de treinamentos.

No caso do Fluminense a asfixia financeira, a fragilidade institucional, a chegada e saída de um sem número de jogadores ao longo do ano, que atrapalha e atrasa esse processo de implementação.

Em 10 jogos de Campeonato Brasileiro, o Fluminense repetiu a escalação em apenas dois: Goiás e Santos.

Depois nunca mais, e não vai repetir de novo no próximo jogo.

O Allan, por exemplo, jogador que chegou ao longo da temporada, começou o torneio jogando com Airton e Bruno Silva no meio, tempos depois conseguiu se adaptar a uma nova função e render na sua plenitude.

O processo com o Caio Henrique foi mais rápido porque, no próprio Campeonato Carioca, Diniz conseguiu encontrar na lateral seu máximo rendimento na carreira até agora.

Por quantas mudanças e adaptações em virtude de saída e entrada de jogadores o Fluminense precisou passar ao longo da temporada?

Inúmeras.

Saiu o Everaldo, machucou o Bruno Silva, o Ferraz, veio o Léo Artur, depois o Brenner, entraram João Pedro e Marcos Paulo, saiu o Pedro pra seleção e o Luciano, pelo jeito, sairá.

Só agora na intertemporada, vieram Muriel, Nenê e agora o Wellington Nem. E o Pedro, finalmente, fica à disposição.

Tudo isso em 4 meses.

Como armar o Fluminense?

Como escalar o Fluminense?

Como conseguir o equilíbrio necessário para continuar atacando e jogando com protagonismo sem que o sistema defensivo sofra nos momentos em que o Flu não está com a bola?

O Fluminense não possui grandes individualidades.

Toda aposta é no futebol coletivo.

O futebol é um jogo repleto de conexões e movimentos, que requer entrosamento, que precisa que o time se conheça pra que o coletivo funcione. O modelo adotado requer entendimento do jogo posicional.

Fernando Diniz voltará aos testes.

Em um jogo dá pra cravar que Pedro e João Pedro não podem jogar juntos?

Sem Allan, no meio, Bruno Silva ou Yuri?

Se jogar o Caio pro meio e o Mascarenhas pra lateral a gente melhora a intensidade e organização no meio e continua chegando ao ataque pela esquerda com a mesma desenvoltura que a gente chega quando o Caio joga por ali?

Nenê e W. Nem podem jogar juntos sem comprometer o sistema defensivo uma vez que nenhum deles dificilmente será capaz de afundar com o lateral adversário pra recomposição?

Eu, com toda sinceridade, não sou capaz de responder nenhuma das perguntas acima. E tenho outras a fazer, sem resposta para dar.

Seria uma beleza, seria extremamente popular, escrever um post chamando o treinador de burro e propondo aqui a escalação que deve enfrentar o Vasco, a solução pronta.

Eu mesmo já fiz isso um sem número de vezes.

Mas a gente precisa ser humilde. O Fernando Diniz, e aí a gente pode pegar qualquer entrevista dele, está longe de ser um idiota. Longe.

Tem uma clareza pra falar de futebol que poucos possuem no país.

Nesse momento você pode estar se perguntando se eu acho que Diniz não merece nenhuma crítica, se não tem nenhuma responsabilidade pelo momento ruim do Fluminense no Brasileiro.

Diniz merece ser criticado no que ele tem responsabilidade.

Em relação ao último jogo de diversas formas:

1 – A escalação do Agenor. Todo gol que o Fluminense vem tomando e o de segunda não foi diferente, a torcida se pergunta se um outro goleiro pegaria. Eu acho que a bola de segunda-feira, assim como o gol da Chapecoense era defensável. Bola que viaja, que não vai forte, um goleiro maior e mais ágil teria chance. Todos sabemos que Muriel será o titular. E precisa jogar sábado, até pra entrar em campo terça com mais ritmo, pois em Montevidéu teremos uma quantidade enorme de cruzamentos na nossa área.

2 – Escalação do Yuri. A saída de bola com zagueiros e um meio campista espetado entre eles, pra não se tornar arriscada e uma troca de passes completamente inócua necessita que algum deles saiba conduzir a bola. Allan sabe, Yuri tem dificuldade. Soma-se a isso que não é um jogador que prima pela grande capacidade de marcação, pela tal “pegada”. Não ajuda na construção e pouco ajuda no momento defensivo.

3 – Substituição Gilberto por Julião. O Fluminense precisava atacar e ganhar o jogo. Pra que espetar o Julião na ponta se o drible não é sua característica? Por que não colocar um ponta ofensivo naquele momento? Brenner, Pablo Dyego, alguém que faça diagonal e vá pra cima do adversário.

4 – A queda de produção no segundo tempo é inexplicável. O time foi muito mal.

Agora não dá pra criticar o Diniz quando o time perde 4 gols dentro da área na zona frontal.

A bola decisiva dos jogos do Flu cai nos pés de meninos de 17 anos, de 21 anos e de jogadores como o Yony, que não tem grande capacidade de finalização.

Os jogadores que ajeitam o corpo e tiram a bola do goleiro, o Fluminense não possui condições financeiras de contratar.

Em 10 jogos pelo Brasileiro, o Fluminense criou 47 chances reais de gol.

Reparem que isso não é número de finalização, é chance real, números que a Flupress anota e que dependem única e exclusivamente da conclusão correta, uma vez que toda a jogada já foi construída.

De 47 chances reais criadas, o Fluminense conseguiu colocar pra dentro apenas 14.

Nos dois jogos em conseguiu fazer metade das chances que criou, ganhou os dois, num deles colocou 4 no Cruzeiro.

Contra Flamengo e Botafogo, por exemplo, foram 11 chances somadas e 0 gols.

Se a gente pegar esses números, sabendo que contra o Athletico na Arena da Baixada, jogo que ficamos com 1 a menos quando estava ainda 1 a 0, tivemos 0 chances reais de gol, temos 47 chances de gol em 9 jogos, o que dá mais de 5 por jogo. É um bom número.

O Fluminense levou 17 gols no campeonato. Os gols podem ser tomados de acordo com os momentos do jogo:

– Momento defensivo – time postado se defendendo

– Contra-ataque – transição do adversário

– Bola parada

– Falha individual

Dos 17 gols, o Flu tomou 1 gol de contra-ataque, o primeiro do Bahia.

Falhas individuais foram 2. Agenor contra o Bahia e Bruno Silva que matou a bola errado contra o Santos.

Bola parada foram 4. Goiás, Bahia, Grêmio, Ceará.

Os outros 10 o Fluminense tomou com a defesa postada.  4 com cruzamentos na área pra cabeçada do adversário.

É falaciosa, portanto, até aqui, a tese de que o Fluminense tem sofrido muito com contra-ataque porque joga com posse.

Na defesa, cruzamentos na área, tanto na bola parada, quanto em movimento e, no ataque, poder de definição. Esses hoje são os pontos que devem merecer maior atenção e que estão levando pontos pelo caminho.

É fato que o Fluminense passa por dificuldades de vencer seus jogos no Campeonato Brasileiro.

Não que isso seja novidade nos últimos 3 anos.

Em 2016 o Fluminense ganhou 13 jogos de 38. Em 2017, foram 11 jogos e, em 2018, 12.

É fato que a execução do modelo ainda carece de ajustes, de experimentações.

Mas é preciso que o Fluminense acerte o diagnóstico na busca pelas vitórias.

Sem perseguições a treinador e jogadores, sem histeria e com maturidade tanto por parte da gestão, quanto por parte dos torcedores.

É uma pressão completamente insana ficar falando em rebaixamento com 10 rodadas de campeonato.

Ainda mais quando as bolas do jogo caem nos pés de meninos com menos de 23 anos, num time e elenco repleto de jogadores muito jovens.

Ou a torcida tricolor protege esse grupo, que entrega tudo dentro de campo, ou o caminho, que já é difícil vai se tornar ainda mais árduo.

Tabelinha

– É um completo absurdo a torcida do Fluminense brigar porque um quer vaiar e o outro aplaudir. Todos erraram. Aplaudir, no fim do jogo, empate com o Ceará no Maracanã é um erro e um acinte ao Fluminense e sua história. Tentar dar porrada em quem aplaudiu é um absurdo.