Por que o Fluminense não vai ter um treinador estrangeiro?

“Grandes treinadores são reflexo de grandes sistemas educacionais”

O trabalho de Jorge Jesus vem gerando muitas reflexões por aqui, e esse pode ser um movimento importante pro futebol brasileiro e, particularmente, para o Fluminense.

 
 
 

É muito claro que o elenco do Flamengo brigaria em cima no Campeonato Brasileiro, afinal, mais que qualquer treinador, o jogador, a qualidade de um elenco, são fatores primordiais para um trabalho do nível que vem sendo feito no Flamengo.

Mandar colocar Jorge Jesus na Chapecoense pra ver o que acontece, por exemplo, é um argumento raso (e burro) de quem não está vendo ou está tentando não ver o óbvio.

Assim como dizer que com aquele elenco qualquer um venceria.

Até poderia mas, da forma como foi, nunca aconteceu. Nunca.

O óbvio é: já tivemos muitos grandes elencos vencendo o Brasileirão. O Fla da década de 80, o São Paulo, o Palmeiras e o Corinthians na década de 90, o Vasco de 2000, o Cruzeiro de 2003, o Fluminense de 2012 e por aí vai.

Todos ótimos, mas nenhum, absolutamente nenhum campeão brasileiro foi tão avassalador com seus adversários, foi tão dominante, tão superior, quanto o time treinado por Jorge Jesus. O Flamengo de Jorge Jesus é um outro time em relação ao Flamengo de Abel Braga.

Não à toa, bateu todos os recordes da história do torneio. Esse Fla pratica um futebol muito parecido com que a gente vê na Europa. Jorge, Rafinha, Filipe Luis, são muitas escolas, são muitas influências positivas de gente muito boa (Guardiola, Simeone…). Os caras, sem dúvida, trazem isso para o clube.

O mesmo fenômeno aconteceu na Inglaterra. O milionário Manchester City ganhou a Premier League antes da chegada do Guardiola, mas nunca jogou um futebol e ganhou a liga batendo recordes como o fez com Pepe.

E parece que o Liverpool de Klopp caminha esse ano no mesmo sentido. O Liverpool de tantos títulos deve fazer a maior liga da sua história.

Isso, amigos, é trabalho do treinador.

Grandes treinadores são responsáveis por ganhos de desempenho individuais e coletivos que são fruto de bons treinamentos e metodologias adequadas e, sim, esses caras fazem diferença.

Pode ser a diferença entre um primeiro e um quarto lugar, pode ser a diferença de alguns pontos pra vencer ou ficar em segundo e pode ser a diferença entre ser campeão e ser campeão apaixonando. A diferença existe.

Minha predileção por treinador estrangeiro vem, menos por um nome específico e mais porque, lendo livros e estudando um pouco, tenho certeza de que a preparação dos caras é bem melhor da que é feita no Brasil, onde a grande maioria dos nossos gestores possui um déficit educacional importante.

Pra vocês terem uma ideia, na Federação Argentina (e é indiscutível o sucesso dos treinadores argentinos na América do Sul e no mundo) o curso deles tem duração de 2 anos.

E inclui matérias, que vão bem além da questão técnica e tática: técnicas de expressão oral e escrita, psicologia, preparação física, biologia, arbitragem, administração e condução de equipes, pedagogia e até neurociência.

Evidentemente que o cara sai de um treinamento desses muito mais preparado do que aquele outro, que, muitas vezes, pouco frequentou escola ou frequentou de baixa qualidade e faz apenas o cursinho da CBF.

Em Portugal, Vitor Frade, professor da Universidade do Porto, onde estudou e ensinou, medicina, educação física e filosofia, no fim dos anos 80, combinou seus conhecimentos de cibernética, antropologia e psicologia para criar um programa esportivo chamado de Periodização Tática. E isso gerou Mourinho, Vilas Boas e… Jorge Jesus.

A Espanha é o berço do jogo de posição.

A Holanda, com o Ajax, tem uma escola absolutamente importante e muitas vezes inovadora.

Não à toa, Rogério Ceni (o brasileiro que eu queria no Fluminense) assim que virou treinador se utilizou de um auxiliar europeu porque o que se faz aqui, Rogério conhece, e reconhece que esse intercâmbio é muito importante e melhora seus treinos, sua metodologia, sua forma de ver futebol e a forma de interceder no que é necessário.

E por que, diante de tantas evidências de que há boas escolas fora do Brasil, o Fluminense não vai ter um treinador estrangeiro?

Eu comecei a escrever no Globoesporte com o Gustavo em 2014 e tive, por conta disso, a oportunidade de conhecer um pouco da política interna do Fluminense e muitos quadros políticos do clube.

A política do clube, e é dela que saem presidentes e gestores, é o tipo de política paroquial, sem nenhum profissionalismo e com uma análise sempre muito rasa, muito pobre acerca dos problemas e soluções do Fluminense. E o futebol é influenciado por esses quadros políticos. É um fato.

Escalações, esquemas táticos, contratações, muitas vezes são debatidos em grupos de whatsaap e facebook que possuem (até porque dão voto) acesso aos quadros políticos do clube e esses possuem total acesso ao departamento de futebol.

E adoram esse acesso, adoram debater com treinadores escalações, esquemas, contratações e planejamento. E eles sempre irão optar por treinadores que deixem espaço aberto para isso, com quem tenham linha aberta. Treinadores amigos. É isso que virá.

É completamente impossível que treinadores estrangeiros, muitos, frutos de um processo que os capacitam completamente para trabalhar com futebol, tenham seu trabalho sob avaliação de quem não tem a menor capacidade (nem cognitiva, nem curricular) pra fazer esse tipo de trabalho.

No alto nível, o sarrafo é muito alto e, nem nós torcedores e nem vocês militantes políticos, conselheiros, presidentes, não somos capazes, não somos preparados o suficiente para esse debate de ideias com gente tão preparada. Fica mais fácil, portanto, para muitos, que amigos do presidente ou do vice de futebol, sejam colocados em funções estratégicas, incluindo aí, treinador de futebol.

Porque, e isso é humano, é difícil demais conviver com o diferente e, principalmente, com o diferente que faz críticas, que gera discussões, que levanta dúvidas acerca de processos com os quais o clube já está acostumado, porque “sempre foi assim”.

É muito mais fácil se cercar de bajuladores, amigos, e torcer pra bola entrar.

Tabelinha

Em 2015, na minha turma do curso de gestão técnica pela Universidade do Futebol, tive a grande oportunidade, e foi muito rica, de conviver (em grupos de whatsap) e conversar muito com dois caras que ali eram alunos como eu. Eram eles, Marcelo Sant’Ana e Marcelo Paz, que, respectivamente, mudaram Bahia e Fortaleza de patamar na função de presidente. Enquanto uns só fazem política, outros se preparam. Não tem segredo.