(Foto: Lucas Merçon - FFC)

Em tempos de imensa dificuldade de interpretar texto, eu preciso começar a postagem de hoje com a seguinte observação:

Eu não defendo a demissão do Odair.

Sei que boa parte da torcida já pede isso, Odair jamais seria minha opção para treinador, mas entendo que o tempo é curto para desenvolver e analisar um trabalho.

Entretanto, como todo trabalho, o do Odair também está sujeito a críticas. Críticas das mais variadas. De nomes escolhidos à concepção do modelo de jogo.

Hoje eu não quero falar de nomes, vou deixar pra fazer isso em outra oportunidade. Tenho meu time, que é diferente do dele e que também muda um ou dois nomes dependendo da característica do jogo a ser jogado.

Hoje eu quero fazer uma abordagem um pouco mais filosófica do futebol e do Fluminense.

Há mais ou menos 6 meses estive acompanhando minha esposa, que estava a trabalho, num condomínio de classe média alta na Zona Oeste do Rio.

Chegando no condomínio, minha esposa foi resolver suas coisas e eu fiquei esperando em frente a um campo de futebol de grama sintética absolutamente bem cuidado, onde a bola rola como numa mesa de sinuca. Desses que dá vontade de colocar a chuteira e entrar em campo.

Havia um jogo. Jogo de meninos de 11, 12 anos. Pelo que pude ver era o time o condomínio contra um time visitante. Jogo sério, meninos de uniforme, camisa, juiz, tudo como manda o figurino. Exceto, os pais.

– TIRA!

– CHUTA!

– ZERA!

E a bola ia e voltava de uma zaga à outra. O meio campo só via ela voando.

Um dos meninos ousou matar a bola e sair jogando…

– TÁ DE SACANAGEM!

– JOGA SÉRIO!

Passar do meio campo? Pecado mortal.

– VOLTA PORRA!

– TÁ INDO MUITO!

E o jogo, o tempo que eu vi, se transcorreu exatamente como meu relato. E eu não vi nenhum gol nos 15, 20 minutos que passei ali.

Minha esposa voltou, fomos almoçar ali perto. Os gritos continuavam de longe, com meninos submetidos a um estresse absurdo no seu horário de lazer por um bando de adultos doentes, gente competitiva ao extremo e parecendo que a vida dependia do resultado do jogo do filho pra fazer sentido.

Nessa brincadeira, algo me chamou muito a atenção. O pavor de perder, refletido no grito dos pais e nos olhos das crianças que chutavam a bola pra qualquer lado apavoradas, era muito maior do que a vontade de ganhar, de jogar bola, de tentar uma jogada diferente, de dar um drible, uma caneta, uma jogada de efeito ou qualquer coisa que valesse à espera, o frio na barriga, nos dias que antecedem esse tipo de jogo ( quem já jogou bola na vida sabe como é isso).

E assim, a gente chega ao futebol brasileiro, ao Fluminense de Odair.

Na concepção.

Odair não é burro. Quer dizer, não sei se é ainda. Recebeu muitos jogadores, rodou o time e ainda luta pra encontrar seu 11 e para implementar sua forma de jogar.

Mas Odair, com toda certeza, é um daqueles pais ali de cima que tem medo de perder, que tem pavor de levar um gol, que se caga de medo de um contra- ataque que pegue sua defesa desprevenida.

A substituição no fim do jogo, aos 40 minutos, já com 1 a 0 contra, disse tudo: Entra Ganso e sai W Silva. O medo de tomar o 2 a 0 foi bem maior que a vontade de empatar.

Amigos, peguemos todos os jogos que o Fluminense fez até aqui no ano.

Excetuando o time titular do Flamengo, qual dos times era do nível do Fluminense?

Qual dos times enfrentados exigia tanto cuidado?

O Fluminense tinha uma chance de título importante no ano: A Sul-Americana.

E Odair já veio com o papo muito estranho antes do jogo e uma postura nojenta nos dois jogos que se seguiram.

Um primeiro tempo aqui morno, um primeiro tempo lá idem e uma eliminação que foi um vexame, não pela eliminação, mas sim pelo que o Flu não jogou, não buscou, não tentou nos 180 minutos arrebentar os caras e carimbar a vaga.

Quem dirige o Fluminense hoje em dia precisa entender o momento do clube. O Fluminense não será campeão de nada importante por aqui. O Fluminense sequer consegue se classificar pra uma Libertadores que dá quase a metade das vagas pros times que jogam a série A.

É o “grande” há mais tempo sem jogar. Sim, o grande está entre aspas mesmo.

Você vem jogar com o La Calera no Maracanã, com sua torcida e opção é uma só: atacar os caras até fazer um, dois e carimbar a vaga.

Ah, mas pode levar um contra ataque e perder o jogo…

Pode sim. É do jogo. Todo time no mundo que ataca está sujeito a levar contra-ataque.

Mas o torcedor que vai ao estádio prefere mil vezes ver um time que agride, que se arrisca, que é louco por vitória do que um time covarde que ataca com medo de perder a bola pra não ser surpreendido.

Na impossibilidade de títulos, e nesse momento essa é a realidade do Fluminense, que o clube jogue futebol com coragem pra, pelo menos, se tornar interessante aos olhos do público.

Exatamente o que o Fluminense não fez ontem. Três chances de gol contra um time que quase caiu pra terceira divisão ano passado é um número ridículo, vergonhoso.

Não existe jogar de igual pra igual contra o Figueirense e esperar a hora certa, um lance fortuito pra alcançar a vitória. Até porque esse tipo de lance pode ocorrer pro outro lado.

A vitória nesse tipo de jogo (La Calera, Figueirense…), você precisa buscar assim que o juiz apita.

Odair sofreu críticas no Internacional por causa da dificuldade que o time tinha quando precisava de gols.

Odair começa a sofrer críticas no Fluminense exatamente pelo mesmo motivo, com o agravante de uma eliminação ridícula nas costas.

O Fluminense jogará uma final quinta-feira que vem e precisa de gols. O Fluminense fará muitos jogos de série A no Maracanã contra adversários que virão fechados.

É preciso, nesse tipo de jogo, mais coragem, mais gente agredindo os caras.

Jogar futebol com coragem, ir pra dentro do adversário com intensidade total os noventa minutos, não deixar os caras respirarem, impor um modelo que faça o torcedor abraçar o time, deveria ser uma decisão institucional, de cima pra baixo.

O treinador só cumpriria.

Mas a gente sabe que uma gestão que teve 4 treinadores em 9 meses não tem nenhuma ideia do que quer.

Que essa pressão venha do torcedor!

Depois do La Calera, cair pro Figueirense seria ridículo.

Cair pro Figueirense sem atacar os caras os 90 minutos seria imperdoável.