É com grande felicidade e esperança que eu recebo a notícia de que o debate sobre a construção de um estádio próprio para o Fluminense foi reacendido. Ao longo de minha carreira profissional – como executivo e cronista esportivo – eu tive o privilégio de visitar mais de uma centena de arenas esportivas ao redor do mundo. Por conta dessa experiência, posso garantir: os estádios têm alma. E vou além. Clubes que possuem estádios com alma têm muito mais caráter e, consequentemente, ganham mais títulos e atraem novos torcedores do que os demais. Quem já viu o Borussia fazer ferver sua arena em Dortmund ou a Bombonera pulsando no ritmo do coração da hinchada do Boca, ou ainda a torcida do Liverpool cantando You’ll Never Walk Alone em Anfield Road sabe exatamente do que estou falando. E se não teve a oportunidade de visitar esses estádios, basta lembrar da nossa campanha na Libertadores de 2008, ao longo da qual nem mesmo o Barcelona de Messi, Suarez e Neymar escaparia de levar uma sapecada de 3 x 1 no Maracanã, semelhante às que aplicamos em São Paulo, Boca e LDU.

O Fluminense é um clube imenso, tradicional, cheio de alma e história – e, portanto, obviamente merece ter um estádio para chamar de seu. Uma casa na qual possa abrigar grande parte de seus jogos no Rio de Janeiro, deixando para o Maracanã apenas as grandes decisões e os clássicos com seus grandes rivais na cidade. É claro que mesmo esses grandes jogos poderiam ser mandados em um estádio próprio, mas acredito que a cidade do Rio de Janeiro sem um Fla x Flu no Maracanã simplesmente perderia sua alma. O Maraca, de tantas e extraordinárias lembranças, como aquelas de 2008 que acabo de mencionar, merece permanecer como grande palco. No entanto, mesmo um estádio belo e gigante se torna vazio e tristonho quando abriga jogos menos atraentes. Os brasileiros que comandam o Orlando City sabem disso. E assim, apesar de atualmente sediarem seus jogos no Citrus Bowl, um belo estádio com capacidade de 65 mil espectadores, estão construindo um totalmente novo, para “apenas” 25 mil. Porque um jogo com casa cheia e 25 mil pessoas será sempre melhor, sob a ótica da experiência do torcedor, do que um confronto com 30 ou 35 mil em um estádio com capacidade para o dobro. Detalhe: a nova arena do Orlando City está sendo construído com 100% de recursos privados e captados pelo próprio clube, o que me leva ao próximo assunto.

Há muitas formas de se financiar um estádio – e provavelmente teremos que usar todas elas, já que não somos um clube favorecido pelo dinheiro das grandes emissoras de TV e dos anunciantes que sempre preferem quantidade de torcedores à qualificação da audiência. Teremos que apelar para campanhas de arrecadação junto aos sócios torcedores; teremos que fazer acordo de naming rights com alguma grande empresa que deseje batizar a arena; teremos que comercializar espaços de lojas, restaurantes e estacionamento; teremos que vender publicidade no gramado, nas arquibancadas e no entorno do estádio; teremos que usar uma (pequena) parcela da venda de jogadores para abater custos; e, definitivamente, teremos que obter financiamentos de longo prazo junto a empresas sérias do setor financeiro, uma vez que não há como pagar um estádio em menos de 20 anos sem quebrar o clube ou devastar seu plantel de craques e futuros craques. E quem prometer algo diferente disso é mentiroso ou péssimo gestor. Portanto, sim, precisaremos de uma série de estratégias para erguer a nossa casa, o nosso templo do futebol tricolor. A única coisa que posso garantir que não precisaremos é de um mecenas.

Não existe no mundo uma única pessoa que tenha doado grandes somas de dinheiro a um clube sem nada esperar em troca. Podem pesquisar. Bilionários americanos doam centenas e centenas de milhões de dólares para universidades como Harvard, Stanford e Yale, mas não para clubes como o Chicago Bulls, o New York Yankees ou o Green Bay Packers. Um bilionário russo ou indiano pode comprar um clube. Mas para ser dono, para ganhar dinheiro – ou até para lavar dinheiro –, jamais por amor ou abnegação. Portanto, eu desconfio de todo e qualquer dirigente ou candidato a dirigente que aparece com um discurso de “vou erguer um estádio para nossos torcedores” ou “vou dar um estádio de presente para o clube”. Não acreditem em mecenas. Ainda mais em mecenas que emprestam, em vez de dar, e que cobram o dinheiro emprestado com juros de mercado e no curto prazo, em vez de aceitar parcelas distribuídas ao longo de décadas, como ocorre no financiamento até de uma casinha em Madureira – e que dirá um estádio para milhares de espectadores. Pagar a um banco em 20 anos não desestrutura o planejamento do clube. Pagar ao “mecenas” que até adianta recursos, mas logo exige a quitação, às vezes à custa da venda de grandes promessas da base, não é outra coisa além disto: falta de gestão profissional. Porque um estádio que se paga em 20 anos, com um bom time jogando nele, permite ao clube formar novos torcedores. Já um estádio que se paga em três ou cinco anos por conta da venda de jogadores ou da dilapidação do patrimônio da instituição pode colocar o futuro da mesma em risco. Administração de empresas, livro um, página um, primeira aula. Simples assim.

Por todo o seu significado como solo sagrado no qual nasceu o Fluminense, o futebol brasileiro e até a própria Seleção Brasileira, eu acho que as Laranjeiras imortais mereciam, mais do que qualquer outro lugar na cidade, abrigar nosso estádio. Um novo estádio antigo. Por fora, a beleza clássica das linhas arquitetônicas da nossa sede. Por dentro, arquibancadas estendidas para abrigar 15, talvez 20 mil pessoas. Um caldeirão recheado de história, no qual os fantasmas de Oscar Cox, Castilho, Telê, Assis, Washington, Careca do pó-de-arroz e Nelson Rodrigues assombrariam nossos adversários como se fossem o célebre Sobrenatural de Almeida. Quem quiser saber como poderia ser esse estádio das Laranjeiras com o qual tanto sonho, procure conhecer o estádio do Fulham, em Londres. Uma pequena pedra preciosa, batizada de Craven Cottage. Tijolos centenários que convivem em harmonia com modernas arquibancadas. Um conjunto coerente, no qual o passado e o futuro não brigam. Ao contrário: se abraçam. Já vi alguns projetos para um estádio nas Laranjeiras, mas nenhum com semelhante estilo e cuidado histórico. Fico arrepiado só de imaginar a inauguração gloriosa de um estádio assim.

Eu sei que talvez não seja possível colocar de pé um sonho tão lindo, o que nos levaria a buscar algum outro bairro como alternativa. Uns dirão que a engenharia de tráfego não permitirá, outros mencionarão a segurança do Palácio Guanabara, as complicações de se invadir áreas de esportes amadores na nossa sede ou qualquer outra razão circunstancial. Mas, em nome do amor que temos pelo Fluminense, afirmo que esse sonho merece ser sonhado. Merece ser tentado, buscado, merece todo o nosso esforço e, acima de tudo, merece a nossa união em torno dele. Não devemos sonhar com o estádio do mecenas Fulano, com o projeto do presidente Beltrano ou a realização do empresário Cicrano. O renovado Estádio das Laranjeiras não pode ter dono. Ele deve ser de todos nós. E qualquer tolo exibicionista que tente posar de dono de uma obra que foi paga com os recursos do nosso grande clube e de seus torcedores apaixonados deveria ser renegado ao lixo da história. Porque se há uma coisa que eu realmente desprezo são pessoas que se julgam maiores ou mais importantes do que o Fluminense Football Club.

Meus netos hão de ver uma partida disputada nas Laranjeiras, como meu avô, meu pai e eu tivemos a chance de testemunhar. Esse é um sonho que vale a pena ser compartilhado. Vamos trabalhar por ele!