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 No último dia 26, pouco mais de quatro mil associados compareceram a Laranjeiras para eleger, com cerca de 2 mil votos, o futuro presidente do Fluminense, Pedro Abad. Vários de seus eleitores celebraram as eleições nas redes sociais como inesquecível festa democrática. Teria sido mesmo uma festa democrática?

 
 
 

Somos, os tricolores, algo entre cinco e seis milhões de torcedores espalhados pelo chão brasileiro. Fechemos em 5,5 milhões, pra não brigar com estatísticas. Fazendo rapidamente as contas, a escolha do nosso próximo presidente se deu com um quórum de impressionante 0,1% do universo de tricolores, e o ungido se elegeu com a magnífica adesão de 0,05% desse universo. Festa democrática.

2Há quanto tempo o Fluminense conspira contra sua vocação irrefreável de clube de massa? Quando nos fechamos em cardinalato dando as costas à nossa tradição de clube popular?

Não faz tempo de enciclopédia em que me vi forçado dezenas de vezes a sair de casa com a boca de café para encontrar lugar espremido no Maraca lotado a cada clássico decisivo de um Carioca repleto de representatividade. Contra Bangu e América, 30 mil, 40 mil, com não rara frequência. Tá certo que não dividíamos a geral num Fla x Flu, mas ocupávamos pelo menos um terço dela. Quando a grana apertava, fui lá muitas vezes, e me sentia incluído naquela massa de tricolores da classe trabalhadora.

Houve um tempo que não faz tanto tempo assim em que víamos orgulhosamente pendurados nas paredes de barbeiros, sapateiros, botecos, armarinhos, eletrônicas, oficinas – ao lado do calendário Pirelli com a Magda Cotrofe seminua -, a foto de um grande ídolo ou o pôster reluzente do último time tricolor campeão. E sempre era recente. Nosso escudo ornava triciclos de padeiros, bicicletas de pedreiros, fichários de estudantes, carros velhos de biscateiros, tabuleiros de camelôs, toalhas e assentos de motoristas de ônibus, balcões de cabarés, e flâmulas com a relação de nossos títulos salpicavam de três cores as salas das mais humildes casas brasileiras. E das menos humildes também. Frases de parachoque de caminhão celebravam nossas conquistas e exaltavam a delícia e o orgulho de ser tricolor. Aqui e ali víamos o lindo brasão forrando em plástico duro o selim das Monark Barra Circular da gente simples, rodando nas cidades e grotões. Éramos elite no sentido em que congregávamos os melhores de qualquer extrato social, e não elite pelo sentido excludente de uma e só uma classe social. Éramos um só e universal, e era fácil cooptar um filho e até mesmo amigos de filhos para a aventura inigualável de torcer pelo Fluminense.

3Hoje, qual a chance real de uma criança que não tenha pais tricolores vir a ser tricolor? Sejamos sinceros, muito pequena. Constrangidos, precisamos admitir: qualquer pesquisa que se faça para medir qual o clube mais antipatizado pelos torcedores rivais indicará que surfamos solenes na liderança.

Quando se quebrou o elo de nossa tradição de clube de massa? Quando nos ensimesmamos em certezas de grupos ávidos por poder mesquinho e excludente que viraram as costas a milhões de nós? Quem tirou o Fluminense dos colos e corações dos brasileiros comuns?

O futebol envolve hoje um modelo sofisticado de negócio, com várias marcas disputando avidamente novos consumidores para gerar escalas que se transformem em ativos diferenciados, em vantagens competitivas num mercado canibalizado. O torcedor é um consumidor fidelizado pela paixão, mas é preciso criar as condições para que se produzam novos torcedores.  Em todas as classes.

Gerar empatia, atrair pela tradição, ampliar a clientela pela gestão competente de ações pós-títulos: há muito o que fazer, e muito pouco o que não fazer, como o descompromisso com o disputar sempre, ganhando quase sempre.

O Fluminense dos ungidos está se agarrando ao muito pouco, se distanciando de sua vocação vitoriosa – tantas vezes campeão – de seus elos populares, dos dramas suburbanos dos personagens de Nelson, do samba de Cartola, do dia-a-dia das manicures e peões, do radinho colado ao ouvido dos porteiros em seus domingos solitários. É tarefa urgente recuperar o Fluminense que sobrevoa soberano a frivolidade dos fatos efêmeros. Fomos Fluminense em Nova Lima e nas várzeas de Brasília, pela Série C, e fomos Fluminense na Bombonera, pela Libertadores. E somos o que somos eternamente porque nossa força reside na paixão avassaladora de milhões de comuns.

Fui um dos que não reconheci no Abad estatura suficiente para enfrentar a imensa missão de presidir o Fluminense. Quero muito estar errado. Serei crítico desde o primeiro dia, mas o Fluminense universal, de todos, de todos mesmo, opera milagres, e o tímido Abad pode ser tocado por um desses milagres. Ele e os que em Laranjeiras se reentronizam agora, que esqueçam suas convicções de laboratório e suas vaidades condominiais. Ao Abad e ao séquito, peço que deixem o enorme Fluminense falar por si, abram-no para os milhões, para os muito além dos dois mil. E cuidem de repor o Fluminense no imaginário afetivo dos brasileiros de todos os cantos e classes. Defendam-no bravamente, engrandeçam-no, justicem-no. Se não o fizerem, saibam que o Fluminense é um moinho, Laranjeiras os justiçará, reduzirá suas ilusões a pó, e irromperá em abismo, abismo que cavaram com seus pés.